1 abr

Ver-o-Peso em Belém do Pará: 384 anos de história e transformação urbana

Mercado Ver-o-Peso (Desenho de Luiz Porto)

“A canoa traz o homem

a canoa traz o peixe

a canoa tem um nome

no mercado deixa o peixe

no mercado encontra a fome”

O trecho do poema acima de Max Martins fala da vida no Mercado Ver-o-peso, na cidade de Belém do Pará, grande metrópole da região amazônica, o poeta retratou a dificuldade do homem ribeirinho em vencer a pobreza na cidade. Durante muito tempo o Ver-o-peso,  apesar de sua grande importância econômica regional, chamava a  atenção por sua desorganização espacial, refletida na distribuição irregular de barracas amontoadas umas sobre as outras, sem ventilação e iluminação adequada, era uma verdadeira favela comercial. Acerca de 12 anos, foi iniciado um processo de revitalização urbana no Pará, o Ver-o-peso foi reformado. O projeto foi feito com ajuda da comunidade, e o espaço tornou-se motivo de orgulho para os paraenses. No dia 27 de março de 2011, o maior mercado aberto da América Latina celebrou 384 anos, símbolo de diversidade, elo entre a metrópole e vida do ribeirinho.

Imagens atuais do Mercado Ver-o-Peso.

O mercado foi criado em 1627 para fiscalizar as mercadorias e cobrar os impostos para a coroa portuguesa, eram as Casas do “Ver-o-Peso”, o que levou o lugar a ficar conhecido popularmente como Ver-o-Peso. Mas a configuração que conhecemos atualmente, na paisagem urbana, é resultado de investimentos realizados no famoso ciclo da borracha, pois o Brasil era o maior produtor mundial de borracha natural do mundo, em meados do século XIX e início do século XX. Esses lucros resultaram em investimentos na construção de prédios públicos, além da  urbanização da cidade, o mercado do Ver-o-Peso, que era a porta de entrada de Belém, logo beneficiou-se deste processo: “as principais ruas foram pavimentadas em concreto e no calçamento de outras em paralelepípedos de granito, importados de Portugal; na obrigatoriedade, através de códigos urbanos, do alinhamento das construções que agora ganhavam varanda na frente dos pavimentos; na ornamentação das antigas praças alagadiças e recém plantadas com amendoeiras e causarias; na construção do Mercado Municipal, junto ao Ver-o-Peso”(Penteado, Rocha 1968).

Durante várias décadas, a riqueza da cidade e das construções da “Belle Époque” de Belém, transformadas em luxo e extravagância  de uma elite, conviviam com a miséria generalizada. No entanto, como o Brasil não possuía qualquer estratégia de desenvolvimento sustentável para aproveitar a súbita extração da Borracha, perdeu espaço para a Malásia por volta de 1912, entrando em decadência. Deste momento, ficou uma enorme riqueza arquitetônica e urbana, patrimônio histórico da Amazônia.

Hoje o lugar é um Conjunto Arquitetônico Paisagístico, composto por edificações do período áureo da borracha e estruturas contemporâneas flexíveis:Mercado de Carne, Mercado de Peixe, Solar da Beira, o antigo necrotério na Praça do açaí , praça do relógio e dos pescadores,e a fantástica feira livre com aproximadamente 1.800 feirantes.

O Mercado de Carne e o Mercado de Peixe são duas edificações construídas em 1899, dentro do padrões da época: arquitetura eclética industrial onde o ferro é o elemento principal. O primeiro possui a área externa de alvenaria, e um imenso pátio interior com imponente estrutura metálica, no estilo “art-noveau”, com detalhes que lembram galhos e folhas de árvores, sua estrutura foi toda trazida da Europa.

Na primeira imagem está o Mercado de Peixe, na segunda o Mercado de Carne, na terceira a feira livre do Ver-o-Peso com seus 1.800 feirantes.

O Mercado de Peixe foi inaugurado no mesmo ano do Mercado de Carne, está em funcionamento, e tem uma movimentação de pessoas e mercadorias bastante intensa, mesmo existindo grandes redes de supermercado na cidade, o mercado de peixe é muito freqüentado. Construído em estrutura metálica, do lado exterior e interior, ” Tem estrutura toda em ferro trazida da Europa a cobertura principal é do tipo ‘marselha’ e as torres todas do tipo ‘art-noveau’, possuem cobertura em escamas de zinco, sistema ‘Vieille-Montagne’ ” (Documentos da Fundação Belém).

A grande atração deste Complexo é a feira-permanente, que durante muito tempo estava presente na imagem da cidade, contudo de forma negativa, pois possuía aspecto de favela encortiçada, onde os ambulantes trabalhavam em péssimas condições. Porém em 1998, a prefeitura de Belém do Pará, instituiu um concurso nacional para revitalizar o Ver-o-Peso, no qual o  escritório Flávio Ferreira Arquitetura e Urbanismo, do Rio de Janeiro, venceu o concurso, e no ano de 2001 o Mercado Ver-o-Peso foi reinaugurado.

Há alguns anos, assisti uma palestra de Flávio Ferreira, na Architectural Association em Londres, ele explicou que para realização do projeto foram realizadas várias pesquisa  históricas na  cidade de Belém, permitindo conhecer a cultura local. Antes da implantação do projeto o mercado estava quase em colapso, nao havia estabilidade no solo, e nem visão para a baia de Guajará, localizada em frente ao Ver-o-Peso, era necessário trazer permeabilidade. Foi necessário estudar o movimento das águas, que invadiam periodicamente o mercado, destruindo a mercadoria dos vendedores e provocando problemas de saúde pública. Outro fator importante do projeto, foi conversar com os feirantes, algo que nunca tinha sido feito nos projetos anteriores.

Toda a infra-estrutura anterior era muito ruim: os prédios históricos estavam desvalorizados, a eletricidade, por exemplo, representava  risco de  de incêndio. Um novo mobiliário urbano foi implantado, incluindo o piso: toda a área do Ver-o-Peso recebeu revestimento e novas instalações elétricas, todas subterrâneas. As antigas barracas de madeiras foram demolidas, e novas  estruturas  de lona tencionadas foram construídas  para abrigar os feirantes.

Essa experiência foi algo que deu certo, até hoje estão erguidas e funcionam bem, apesar de que  a chuva forte da região sempre será um desafio para os construtores, algumas tendas tiveram de ser adaptadas pelos próprios feirantes; foi o que explicou o vendedor de farinhas Sr.José Serrão, que trabalha no mercado há 40 anos, e elogiou bastante o projeto feito há 10 anos. “O tecido das tendas é sintético, branco e translúcido, e tem durabilidade de seis anos. Foram projetadas em módulos de 8 m x 8 m, no total de 77 unidades, propiciando uma área coberta de quase 5 mil m2. O centro do módulo fica descoberto, e nele há um poste que ilumina e proporciona sustentação à tenda. Foram deixados espaços modulados ao ar livre, para propiciar uma melhor circulação vertical de ar. A altura das tendas, por sua vez, permite a circulação horizontal de ar”(Revista Arquitetura e Urbanismo).

Área interna do mercado Ver-o-Peso, curandeiras e Sr.José Serrão.

A área da feira está dividida da seguinte forma: feira de roupa, praça de alimentação, feira das frutas, feira do camarão e farinhas, além de produtos medicinais. A área que se mostra mais exótica é a dos produtos medicinais, dentro de garrafas e no meio de plantas tropicais estão segundo as vendedoras a cura de todos os males contra inveja, “olho gordo” e “mau-olhado”. “Compre, minha filha, Raíz do Sol”, gritava a feirante. Outra, em seguida, disse que o melhor era o banho de descarrego. Quando informei que tinha gastrite logo, veio um curandeiro que disse: “leite de sucuba”. A seção das frutas é rara e riquissima: bacuri, cupuaçu, taperebá, murucí, pupunha. Cores e cheiros, que estimulam nossos sentidos e levam nosso estômago a um estado sublime.

Acima: “Raiz do Sol”, garrafas com porções mágicas, castanha do Brasil e minha foto com a feirante.

Esse grande complexo comercial sofre atualmente com problemas relacionados com a segurança pública, pois ainda é necessário cuidado ao visitá-lo: os furtos de cameras e roubos de bolsas são muito comuns. A situação piora à noite, uma vez que sem o movimento comercial, marginais apropriam-se do espaço assaltando  motoristas e os raros pedestres. Esse terrível problema  poderia ser resolvido com o incentivo da criação de espaços de multiplos usos, icluindo a reutilizaçao de prédios antigos para fins habitacionais . Porém, a importância deste mercado vai muito além do encontro do ribeirinho à vida urbana: ele é uma obra arquitetônica em permanente transformação, que vem metamorfoseando-se ao longo de 384 anos através da força do trabalho de muitas gerações, símbolo da diversidade e inúmeras possibilidades na regiao amazônica.

Referência Bibliográfica

Biblioteca da Fundação Belém. Conjunto Arquitetônico Paisagístico Ver-o-Peso. Acesso em 30/03/2011.

Secretaria de Estado e Cultura do Pará. Belém da Saudade: A memória da Belém do início do século em cartões postais. Belém , Secult, 2004.

Vicentini, Yara. Cidade e História da Amazônia. Paraná, Editora UFPR, 2004.

Penteado, A.R. Belém do Pará- estudo da geografia urbana. Belém, UFP, 1968.

Webgrafia

www.revistaau.com.br/arquitetura-urbanismo Acesso em 30/03/2011.

comentários

Emerson Santos 3/4/2011 - 10h 44

Parabéns pelo trabalho! É sempre bom sabermos um pouco mais sobre a realidade urbana amazônica!
O site está cada vez melhor!

Marcelo Garcia 3/4/2011 - 23h 05

Fantástico!!!
Estava à procura de material relacionado co o o Ver-o-Peso.O posicionamento excelente como muitas questões abordadas despertam a curiosidade de visitar o local.
Gracias Gracias Gracias!!!!

flavia 3/4/2011 - 23h 21

Ola Bianca!
Adorei este texto poético e criativo que me deixou com muita vontade de conhecer Belém do Pará!
Saudadeeees!
Flavia Alcantara

laiane 15/4/2011 - 18h 57

te amo ver-o-peso

luana 17/4/2011 - 23h 42

tive a oportunidade de morar um ano em Belem e por medo de ser assaltada deixei de conhecer muitos lugares interessantes da cidade, inclusive o ver-o-peso. E seu texto me despertou uma grande curiosidade sobre o lugar e um conhecimento a mais sobre essa cidade querida. Parabens pelo trabalho

sara 15/5/2011 - 11h 59

tive a oportunidade de conhecer direito minha querida cidade

zé do vinho 11/3/2013 - 22h 44

Achei Legal, estava com vontade de conhecer, agora vou mesmo, acho que mes que vem (abril 2013) vou VER O PESO.
Valeu a reportagem

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