11 abr

O mestre e o aprendiz: minha aula com Francesco Tonucci

Francesco Tonucci ao lado da diretora da PUEC-UNAM Dr.Alicia Ziccardi e outros professores da Universidad Nacional Autónoma de México.

O psicólogo, pesquisador, desenhador de cartoons para crianças Francesco Tonucci, também autor de vários livros onde seu pensamento tem uma forte conexão com a vivência infantil, realizou ontem no Palacio de Minería na Cidade do México uma palestra sobre as cidades. O evento foi realizado pela PUEC-UNAM(Programa Universitario de Estudios Sobre la ciudad). Nele, Francesco alertou para a necessidade da participação das crianças na construção do espaço público. Para ele, as crianças podem salvar as cidades.

Foi uma experiência enriquecedora, escutar idéias para repensar sobre as cidades, pois dificilmente o urbanismo leva em consideração a participação infantil. Já havia lido na literatura de Jane Jacobs as críticas ao playgrounds e a necessidade de utilização das ruas para a diversão das crianças, sendo as ruas os olhos da vizinhança. Porém, a análise de Tonucci mostra-se mais atual e profunda. Segundo ele, as cidades têm perdido o respeito por si mesmas e comentou: “Após a Segunda Guerra Mundial, as cidades passaram a ser construídas para alguém e não para todos. Os homens privilegiam os carros, porque é símbolo de poder. O caminho dos pedestres dá cada vez mais lugar aos carros”. Refleti sobre minhas próprias experiências: nas cidades que vivi da América Latina e Europa, não existiam crianças nas ruas, lembro de atravessar as avenidas de São Paulo muito tensa. Sempre tinha um carro pronto para atropelar-me.

Verifico ainda que existem menos crianças caminhando ou brincando nas ruas de nossas cidades, pois atualmente a violência aterroriza as pessoas com o medo que vai desde ladrões de carteira a sociopatas. Seria possível perder o medo? Como construir um novo espaço? Segundo Tonucci é possível reverter essa situação, mas avisa: “o excesso proteção pode ser muito muito prejudicial para o processo de amadurecimento e aprendizagem das crianças, porque elas devem conviver com estranhos e aprender a reagir às situações de risco”. E acrescenta: “as crianças necessitam gastar energia, fazer bobagem. Existe tempo para tudo!A acumulação do desejo pode levar a uma explosão que acontece na adolescência, resultando em problemas graves como bullying, alcoolismo, acidentes de moto e até o suicídio juvenil”.

Outra crítica importante está relacionada com a estética do carro. Nesse momento veio à minha mente a imagem do periférico da Cidade do México. O periférico é um grande viaduto(com aspecto Blade Runner) que atravessa vários bairros do Distrito Federal, e não pode ser utilizado pelo transporte público nem por pedestres. Dessa forma, concordo com Tonucci ao criticar a perda da importância do pedestre à medida em que os espaços são projetados como barreiras arquitetônicas: “ são rampas inadequadas, passarelas voadoras, subidas absurdas para pessoas com problema de locomoção, e até para as pessoas saudáveis. Devemos estar conscientes de que é o carro que deve se subordinar aos pedestres, e não o contrário”.

“Infelizmente, o que notamos no dia-a-dia é a adaptação de lugares priorizando a utilização do o automóvel”, explicou o palestrante. Para citar vários exemplos dos resultados maléficos, afirmou Tonucci: “a sociedade atual tem sérios problemas de sendentarismo, o que contribui para o surgimento de problemas como a obesidade infantil. A esperança de vida sempre aumentou com o passar dos anos, mas agora as pesquisas indicam que vai diminuir”.

Durante a palestra surgiu um comentário polêmico sobre o excesso de horas das crianças dentro de casa: “as crianças viviam nas ruas, agora estão em casa. Hoje a casa é o lugar mais perigoso para as crianças, porque grande parte dos acidentes se passam dentro do lar”. Verifiquei esse dado baseado na Organização Mundial de Saúde, onde existem as seguintes informações sobre a população mundial: 45% dos acidentes ocorrem em casa, 30% em locais públicos, 14% no local de trabalho, 10% nas auto-estradas. Concordo plenamente com o especialista ao afirmar: “a criança que não sai de casa não pode realizar brincadeiras que possam contribuir para o desenvolvimento de suas habilidades sociais”. Lembrei da amarelinha, bandeirinha, pique-pega, que nos forçavam a nos movimentar, e criavam estrátegias para vencer o jogo. Hoje foram trocados pelo passeio no shopping, video-game, internet, sem falar das inúmeras horas em frente a tv.

“Porque as crianças não podem participar do governo das cidades? Há pouco tempo parecia um absurdo a participação feminina nas eleições, o que consideramos hoje estranho, pode ser muito normal em alguns anos…É necessário a valorização do pedestre e das bicicletas”, afirmou o mestre no fim da palestra. Acredito que necessitamos pensar coletivamente sobre o espaço incluindo as crianças, de maneira que possam ser responsáveis não somente por elas como também pelo próximo. É necessário ensinar que a cidade é coletiva. Precisamos reapreender a usar o transporte público, exigir de nossos governantes as condições ideais para nossas calçadas e ciclovias. Grazie  Francesco Tonucci foi uma experiência maravilhosa!

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