23 mai

ICOMI e suas Company Towns no meio da Floresta Amazônica.

A iniciativa de se extrair o minério de manganês em plena floresta amazônica relaciona diversos aspectos, entre eles pode-se citar a iniciativa de exploradores em um local que até então era desconhecido, somando-se a isso a ousadia empresarial de conduzir um complexo processo arquitetônico e social no decorrer de um considerável tempo. O empreendimento desenvolvido pela Indústria e Comércio de Minérios (ICOMI) para a exploração de uma jazida de minério de manganês em Serra do Navio, situada no antigo Território Federal do Amapá pode ser considerado um feito admirável no Brasil e uma positiva e inspiradora referência em se tratando de Company Town.

Localização de Vila de Serra do Navio. Autor: Benjamin Adiron Ribeiro.

Vista aérea de Vila de Serra do Navio. Fonte: Arquivo Oswaldo Arthur Bratke.

Vista aérea de Vila Amazonas. Fonte: Arquivo Oswaldo Arthur Bratke.

Como determinado em um contrato assinado entre a Empresa e o Governo Federal, a Icomi teve a licença de exploração por um período de 50 anos, a partir de 1953, sob o comando do engenheiro Augusto Trajano de Azevedo Antunes. O porte do empreendimento solicitou um minucioso planejamento urbanístico e a construção de instalações industriais para a extração, circulação e beneficiamento do manganês, de sistema de transporte (ferrovia, porto e rodovia), além das instalações e infraestrutura para atender o eventual número de trabalhadores e os familiares dos mesmos envolvidos na região.

Imagens: 01: Instalações industriais para o tratamento de minério de manganês em Serra do Navio; 02: O minério é colocado em vagões e segue para o Porto de Santana; 03: Jazida de manganês em exploração na região de Serra do Navio; 04: Oficina de manutenção da ferrovia. Fonte: Arquivo Oswaldo Arthur Bratke.

“Duas pequenas cidades que mais parecem o sonho de um urbanista lírico. Duzentos quilômetros de estrada de ferro. Um porto onde encostam transatlânticos. Nas cidades, há escolas, hospital moderno, supermercado, clube, piscina e cinema. As casas de operários são tão boas e bonitas que a gente fica pensando com melancolia naqueles arruados tipo vila de conferencia vicentina que se constroem no Rio para abrigar favelados. Água, esgotos, telefones e o mais que é preciso para garantir o conforto moderno naquelas duas ilhas abertas no meio da mata. Você anda meio quilômetro para lá da Serra no Navio e já está dentro da floresta, onde quinze anos atrás, só tinha onça e algum bugre. E doença braba na água parada dos igapós.”

Rachel de Queiroz (O Cruzeiro, 08 de maio de 1965).

Esboços das casas de funcionários. Fonte: Arquivo Oswaldo Arthur Bratke.

A mecanização do manganês na Vila de Serra do Navio teve seu início na década de 50. Neste período a manganês era um minério de grande importância, pois era indispensável na indústria do aço no período da “Guerra Fria”, foi então que antiga União Soviética, detentora das maiores reservas mundiais de manganês, suspendeu sua exportação, nesse contexto, as reservas em Serra do Navio ganharam enorme importância na época, declaradas pelo presidente Eurico Gaspar Dutra como “reserva nacional”.

Em termo de infraestrutura, a ICOMI ofereceu a construção de um porto, manutenção de um canal de navegação, ferrovia, rodovias, produção, transmissão e distribuição de energia elétrica, serviços de comunicação, abastecimento de mercadorias como alimentos, roupas e calçados, matadouro, frigorífico, educação primária, habitação, hospitais, serviços de saúde e campanhas preventivas, abastecimento e tratamento de água, avançado sistema de coleta e tratamento de esgoto, coleta e destinação de lixo.

Centro Cívico de Serra do Navio. Fonte: Arquivo de Oswaldo Arthur Bratke.

Centro Cívico de Vila Amazonas. Fonte: Livro Oswaldo Arthur Bratke, 1997.

Complexo educacional de primeiro grau. Fonte: Livro Oswaldo Arthur Bratke, 1997.

Vistas internas e externas do Centro de Saúde. Fonte: Arquivo de Oswaldo Arthur Bratke.

Vistas Internas do Centro de Compras. Fonte: Arquivo Oswaldo Arthur Bratke.

Neste contexto, temos duas vilas residenciais iniciadas em 1957, a Vila de Serra do Navio e também foi projetada a Vila Amazonas localizada no município de Santana. Uma próxima a mina (Vila de Serra do Navio) e outra próxima ao porto (Vila Amazonas). Na vila de Serra do Navio foram construídas 334 habitações em 4 tipologias diferentes. Na qual cada modelo de casa era destinado a abrigar uma determinada hierarquia de funções na empresa. Estavam também contidos na proposta alojamentos para operários, dois clubes sociais, uma escola de ensino fundamental, um hospital que durante muito tempo foi referência internacional, dois restaurantes, uma igreja ecumênica e um centro de compras. No caso da Vila Amazonas foram construídas quase o mesmo números de habitações, alojamentos, dois clubes sociais, uma escola de ensino fundamental, dois restaurantes, um centro de compras e um cinema.

As casas foram entregues mobilhadas aos funcionários. Fonte: Arquivo Oswaldo Arthur Bratke.

Estudo de mobiliário desenvolvido pelo arquiteto. Fonte: Arquivo Oswaldo Arthur Bratke.

Nas oficinas artesãos treinados pela Icomi trabalham na confecção e montagem dos móveis. Fonte: Arquivo Oswaldo Arthur Bratke.

Os núcleos habitacionais projetados pelo arquiteto Oswaldo Arthur Bratke em 1955, para a exploração do minério de manganês no Amapá são referências como propostas de cidades fechadas, denominadas também de Company Towns. Pois trata-se de um projeto inovador para os padrões de cidades mineradoras. Apesar de Serra do Navio esta há 200 km da capital Macapá e Vila Amazonas há 16 km, as vilas foram projetadas como centros autônomos, atendidos por uma completa infraestrutura nos quais o arquiteto se sensibilizou na busca pelo conforto e sua iniciativa de visitar por varias vezes a região e vivenciar questões climáticas, econômicas e de materiais disponíveis. Essas visitas do arquiteto também se deram por outras Company Towns distribuídas pela América do Sul, entretanto, segundo relatórios de Bratke, essas visitas serviram mais para se orientar com relação ao que não projetar do que para buscar modelos.

Esboço de Bratke para o estudo de conforto com ventilação cruzada e beirais longos que controlam a incidência solar e asseguram proteção contra as chuvas.

À esquerda Oswaldo Arthur Bratke e à direita em uma de suas visitas pela região. Fonte: Arquivo Oswaldo Arthur Bratke.

“É recomendável, para o convívio amistoso e duradouro em vilas como essa do Amapá, a contratação de especialistas em Relações Sociais e promotor de atividades esportivas, sociais, para tornar mais cheios os momentos de ócio, evitando-se assim uma apatia nociva à vida em sociedade.” BRATKE (Memorial do projeto).

O desenvolvimento e a implantação das duas vilas resultaram de uma meticulosa e notável mobilização humana, de recursos e sacrifícios. Com importantes empreendimentos no que se refere à possibilidade de ocupação humana, plausível de disciplinados debates, passiveis de criticas de qualquer natureza, justificadas ou injustas, mas que gravaram de forma positiva e histórica a participação significativa do território do Amapá numa escala nacional e mesmo internacional.

“Sempre acreditei que uma implantação urbana deve ser feita à feição de seu morador e não uma imposição à qual ele tenha de se adaptar.”

Oswaldo Bratke

À esquerda, residência original projetada por Bratke (com um sutil acréscimo de uma lona azul em sua fachada) e à direita, residência que sofreu significativas adaptações modernas em sua estrutura. Fonte: Suéllen Conceição.


comentários

jacirene 26/7/2011 - 12h 59

como faço pra ter um livro deste

flavia 26/7/2011 - 13h 07

Este livro está esgotado, mas você pode visitar a faculdade de arquitetura da Unifap e tirar suas dúvidas.

EUGÊNIA 20/10/2011 - 20h 40

QUERIA DAR OS PARABÉNS POR TUDO QUE LI, GOSTARIA TAMBÉM DE TER ESTE LIVRO, MOREI NA VILA AMAZONAS POR 7 ANOS E TENHO MUITAS SAUDADES!

EUGÊNIA 28/12/2011 - 12h 45

CAROS SENHORES,
GOSTARIA MUITÍSSIMO DE COMPRAR ESTE LIVRO, COMO FAÇO?
OBRIGADA
EUGÊNIA

Vicente (Vico) 13/7/2012 - 16h 08

Incrivel, quando eu estive pessoalmente com Arthur Bratke, por volta de 1994/95, fiquei incubido de distribuir esse livro para alguns funcionários da ICOMI, esqueci de tirar um pra mim. Coisas da vida!!!!. Eugenia, acho que Fernando Guimarães tinha um desses, eu mesmo deixei na mesa dele na época do IRDA. Ah! eu tive o prazer de folhear o livro com o próprio autor.

eduardo 31/8/2012 - 01h 20

Existe uma dissertação de mestrado defendida em 2011, na Unicamp, sobre Serra do Navio. Disponível para download em http://www.bibliotecadigital.unicamp.br/document/?code=000795093

raimundo acacio 17/10/2013 - 11h 41

eu vivi esses momentos até 1975. Meu pai Deusdeth Rodrigues Moreira foi funcionário por mais de 20 anos. Morávamos na Vila Amazonas em frente ao supermercado. Criei um grupo no face chamado GAVA – Grupo de Amigos de Vila Amazonas para recordarmos toda uma vida de educação jamais vista.

Charles César “Iberê” 17/10/2013 - 13h 53

Meu pai trabalhou na ICOMI desde de o final dos anos 50 até se aposentar em 1986(Morou lá até seu falecimento em 2011), eu e meu 5 irmãos vivemos toda a nossa infância na Vila Amazônas, foi com certeza a melhor infância que alguém poderia ter tido.

Ana Lucia 5/11/2013 - 09h 44

Sei que as casas ainda estão lá, mas de que vivem hoje seus habitantes?

DENISON SILVAN 24/12/2015 - 17h 30

Como empregado da Mineração Taboca (do Grupo Paranapanema), tive a oportunidade de contribuir para a construção da company town Vila do Pitinga, na década de 1980.
No ano passado lancei o livro Trabalho e relações de trabalho na Mineração Taboca, resultado de minha dissertação de mestrado pela Ufam, no qual descrevo detalhes da arquitetura e do urbanismo dessa company town. Transcrevo um pequeno trecho do livro:
“Com ruas e avenidas que revelam planejamento cuidadoso, a vila [do Pitinga, em Presidente Figueiredo] se insere numa categoria de organização do espaço denominada cidade empresa, também referenciada por alguns geógrafos de cidade de companhia ou company town. Este tipo de espaço urbano é caracterizado pelo fato de ser uma propriedade privada e estar direcionado a alguma atividade empresarial, geralmente ligada à extração de minérios ou a projetos agropecuários em locais distantes dos centros urbanos”. (SILVAN, 2014, p. 60).

Caso alguém queira entrar em contato comigo, meu e-mail é denisonsilvan@hotmail.com

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