13 abr

CIDADE E COMUNIDADE – NOVOS DESAFIOS PARA A GESTÃO COMPARTILHADA DO ESPAÇO PÚBLICO

INTRODUÇÃO[1]

O estado do Amapá experimentou um processo de urbanização tardia que se intensificou nas três ultimas décadas, o que vem resultando em um crescimento urbano desordenado, sobretudo no município de Macapá, refletindo em altos índices de deficiência de equipamentos públicos e estruturas urbanas necessárias a melhoria da qualidade de vida da população. Parte dos problemas apresentados nos espaços urbanos amapaenses tem como origem a baixa capacidade de planejamento empreendida por gestores públicos, além da ausência de políticas regionais em consonância com a realidade pré-existente.

Partindo desse princípio, percebe-se que muitas vezes esperamos o posicionamento e ação por parte de autoridades locais e da iniciativa pública, sem nos lembramos de que podemos também fazer algo para mudar uma situação desfavorável. Isto implica em nosso papel como cidadãos, que como integrantes de uma cidade temos o direito e o dever de agir em prol do bem comum individual e da coletividade, cada um assumindo sua tarefa. Logo, não é necessário fazer grandes obras, basta começar por sua casa, escola, rua, bairro, através de pequenos gestos e ações os quais tem grandes possibilidades de alcançarem resultados significativos.

Ser cidadão e exercer sua cidadania vai além de simplesmente votar, ou cobrar do poder público, ser cidadão é se identificar culturalmente com parte de um território, é exercer direitos e deveres perante uma sociedade, tomando para si a responsabilidade de cuidar daquilo que é de todos e para todos: a cidade. É preciso que criemos consciência de nosso papel e de nossas obrigações, entendendo que o ambiente em que vivemos é reflexo direto de nossas escolhas pessoais e coletivas.

A CIDADE E ESPAÇO PÚBLICO – COMUNIDADE COMO AGENTE DE TRANSFORMAÇÃO E O INSTRUMENTO DE INTERVENÇÃO

A cidade como um todo é palco de transformações e fenômenos que acontecem diariamente. A partir do século XX estas mudanças vem se intensificando, com o surgimento de novos lugares, novas ocupações, novas ruas, praças, espaços públicos, novos valores e simbologias. Atualmente se consolidam como espaços repletos de potencialidades, mas também desafios e problemas, em grande parte advindos do crescimento urbano desordenado. A cidade moderna se conforma sobre uma perspectiva de caos urbano, onde impera a velocidade dos automóveis, a vida cosmopolita agitada, rápida, intensa, bem como a falta de segurança nas ruas, altos índices de violência urbana, criando assim um ambiente fragilizado, desfavorável à vivência urbana e à vida comunitária em espaços públicos.

Jacobs (2000) cita a cidade como um grande cenário de vivências, relações, de diferenças sociais, arquitetônicas, de paisagem e, sobretudo, como um espaço em que falta respeito com seu principal usuário: o indivíduo enquanto cidadão, reforçando a ideia de que a infraestrutura urbana não valoriza a escala humana e que o crescimento urbano tem sido indiferente às necessidades de cunho social. Denota-se então o surgimento do sentimento, cada vez mais presente, de individualismo, do privado, da interiorização da vida, com o advento, como definido por Dias (2005), de lugares que se voltam para si e menos para a cidade. Para o autor:

“Espaços climatizados e protegidos artificializam os lugares públicos ao tentarem traduzi-los como parte de sua ambientação interna. Shoppings Centers, museus e hipermercados são os novos espaços do convívio e da atração e estão ligados intrinsecamente à lógica do consumo, seja ele cultural ou de produtos industrializados de massa, que dentro desta lógica moldaram a cidade do século XX e que ainda reverberam sobre a cidade que adentra o século XXI.” (DIAS, 2005).

Dias ainda comenta que estes espaços privados tem se tornado mais atrativos pois, no papel de novos lugares, foram dotados de qualidades ambientais superiores àquelas da própria cidade, ao mesmo tempo em que esta veio recebendo cada vez menos investimentos em prol da melhoria do ambiente urbano e de seus espaços públicos. Jacobs (2000) reforça essa ideia ao afirmar que o capital disponível é empregado de forma incoerente, desfavorecendo aqueles que necessitam de moradia, lazer e mobilidade.  Sendo assim percebe-se que o espaço público tende a ser com o passar dos anos mais renegado pela sociedade, dando-se maior ênfase a espaços outros em detrimento do urbano construído. Percebem-se espaços públicos cada vez mais degradados, não recebendo o devido cuidado e manutenção, tornando-se apenas ambientes de “passagem” daqueles que habitam a cidade.

Contudo, mediante esta lógica, podemos nos questionar: Qual o nosso papel como cidadãos e usuários da cidade? Será que caberia apenas ao poder público qualificar e manter espaços urbanos? Será esse o panorama de cidade que realmente desejamos? Poderíamos nós gerir mudanças na cidade, que é um ambiente de todos?

Segundo o Ministério das cidades o cidadão e a sociedade tem um papel fundamental na construção e gestão das cidades quanto à qualidade de vida, à justiça social e ao seu desenvolvimento, previsto no Estatuto das cidades, lançado pelo Governo Federal em 2001. O documento traz a população para o centro da discussão sobre o planejamento urbano, buscando-se melhor entender as deficiências urbanas e atender às mais diversas necessidades apontadas pela população. Neste contexto, destaca-se que não apenas de direitos o cidadão é dotado, mas também de deveres, devendo assumir uma responsabilidade compartilhada para de estabelecer uma gestão democrática.

Segundo OLIVEIRA, 2001:

“A responsabilidade não é só do poder público, a democracia pressupõe direitos e deveres, portanto, uma gestão democrática será aquela que apresentar a coparticipação de todos os agentes e atores responsáveis pelo desenvolvimento envolvidos diretamente nas variadas e permanentes questões apresentadas no quotidiano da cidade.” (OLIVEIRA, 2001. pg 17.)

Sendo assim, percebe-se que o poder da população como agente de gestão e transformação da cidade é legítimo e que pode (e deve) ultrapassar apenas as discussões, e transformar-se em ações concretas e incisivas no contexto da cidade. Pensando em mostrar que todos podem fazer algo pelo ambiente em que vivemos, foi pensado um instrumento de intervenção, capaz de mover uma pequena comunidade em prol da melhoria de seu espaço de vivência diária, realizando um estudo de caso em um bairro periférico da cidade de Macapá-AP, o bairro do Congós.

Quando idealizada tal intervenção, buscou-se compreender o nosso papel como usuários desse espaço e em como poderíamos fazer algo por ele, tendo em vista nossa posição como estudantes de arquitetura. Deste modo, foi decidido realizar uma ação prática de valorização do meio urbano, ainda que em pequena escala, capaz de despertar interesse e curiosidade em meio a uma comunidade, surgindo assim o projeto “Cor e Vida”.

A ideia principal foi “revitalizar” uma determinada área de maneira bem simples, com o uso de materiais reciclados e cores, observando posteriormente a reação das pessoas que ali passavam, percebendo o impacto que a ação causaria e tentando despertar o interesse da população pelo público, dotando o espaço de característica que o pudessem distinguir e criar um sentimento de identificação da comunidade para com ele.

O objetivo do projeto em um contexto geral foi colocar a comunidade como agente de transformação, onde a partir do momento em que se entende os benefícios que a ação pode trazer, se cria interesse em apropriação do local e se desperta ideias para promoção de novas mudanças, através da união do conhecimento empírico e da vivência diária do cidadão com o conhecimento técnico e acadêmico. Acredita-se que o ser humano é fator fundamental para a transformação e mudança da cidade, do bairro, da rua em que vive, podendo fazer a diferença e melhorar a qualidade urbana das cidades.

O PARQUE ECOLÓGICO SITIÊ – PROJETO DE REFERÊNCIA

Como referência buscamos o premiado Parque Ecológico Sitiê (Figura 01), localizado na Zona Sul do Rio de Janeiro, nos altos do Morro do Vidigal, constitui um parque urbano com cerca de 8.500m². Em 1980 a área, que hoje é um dos principais parques urbanos da capital carioca, era predominantemente Mata Atlântica e em meadas do ano de 1986 a área começou a ser ocupada por residências irregulares, que acabaram por degradar a área, processo intensificado até o ano de 2003 [2].

Figura 01: Entrada do Parque ecológico Sitiê.Fonte: Blog Geomeridium

O cenário de ocupação inadequada e de fortes impactos ambientais mudou em meados de 2003, ano em que a prefeitura da cidade, como medida de acabar com a ocupação, destrói todas as edificações do local, porém sem remover o entulho gerado pelo processo. Ao longo do tempo esses resíduos se acumularam e se somaram com os descartados pela própria população do entorno, que utilizava do local como lixão a céu aberto.

Diante deste cenário caótico dois moradores do entorno, Mario Quintanilha e Paulo César Almeida, passaram se incomodaram com a situação do local e no ano de 2006 iniciaram por iniciativa própria a limpeza da área, apoiados por uma pequena parcela da população. Assim iniciaram um projeto inovador e que até então não tinham dimensão do que aquilo causaria, resultando na recuperação total da área após seis anos de esforço conjunto. Gradualmente, iniciaram o processo de reflorestamento da área e inseriram também no espaço áreas destinadas a agricultura urbana, transformando o parque na primeira agro-floresta do Rio de Janeiro, reconhecida em 2012 (Figura 02).

“]

Figura 02: Vista geral do Parque Sitiê.Fonte: MARIANA REIS, 2015[3

O projeto, além de ser uma ideia pioneira quanto à recuperação de um ambiente fragilizado e degradado, consolidou-se como um importante agente para o estímulo do cuidado com o local e da apropriação da comunidade para com ele, trazendo para o cotidiano da Favela do Vidigal a noção de coletividade e responsabilidade ambiental, alicerçando um eficiente sistema de manutenção e expansão do parque através da população, que o gere e utiliza. A iniciativa além de trazer toda uma nova consciência para os cidadãos que ali habitam também se sobrepõe e contraria todas às expectativas relacionadas às favelas, as quais em sua grande maioria estão sujeitas à injustiça quanto suas condições de infraestrutura urbana básica e de lazer, suprindo uma demanda da população quanto à oferta de espaços públicos de qualidade, importantes para a vivência e bem estar social.

Atualmente o parque conta com a ajuda e consultoria de profissionais na área de arquitetura, como Pedro Henrique de Cristo, que viu o grande potência do projeto e contribuiu de maneira significativa para a consolidação do design urbano e do conceito relacionado ao Sitiê, sendo esta participação um marco para a instituição de uma cooperação formal entre o profissional técnico e as lideranças do Sitiê. Tal contribuição atribuiu ao projeto uma outra escala de operações, sendo responsável pela ampliação da área de 1500m² iniciais para 8.500m², com isso implementando e agregando novas atividades educacionais, ambientais, de arte, cultura, turismo, tecnologia e empreendedorismo ao local.

O Sitiê revela-se como um projeto modelo, que envolve, coparticipação, responsabilidade compartilhada, democracia, sustentabilidade, consciência ambiental, e sobretudo participação da comunidade, aspecto de fundamental importância para seu sucesso.  Possui um caráter transformador de uma realidade social desfavorável e da mentalidade da comunidade local, criando e implantando uma cultura admirável de excelência e responsabilidade em um ambiente desafiador, de pobreza e violência, provando que um espaço público de qualidade e identificação é capaz de gerir mudanças em seu entorno e em seus usuários.

ESCOLHA E ANÁLISE DO LOCAL DE IMPLANTAÇÃO DO PROJETO

A área escolhida para realização do projeto “Cor e Vida” foi o bairro do Congós, localizado na zona Sul de Macapá, sendo circundado pelos os bairros Novo Buritizal, Alvorada, Zerão e Jardim Marco Zero (Figura 03). Criado por volta de 1985, após ter tido parte de sua área invadida, é um bairro atualmente bem consolidado e dotado de infraestrutura e serviços.

Figura 03: Localização do local de intervenção em relação à cidade.Fonte: Elaborada pelas autoras

Sua principal via de acesso, a Rua Benedito Lino do Carmo, possui ao longo de toda sua extensão diversos estabelecimentos comerciais, posto de saúde, escolas (Figura 04), detendo também urbanização regular, com canteiro central, asfaltamento de algumas vias, ciclovia e paradas de ônibus (Figura 05), havendo constante tráfego de veículos particulares, motos, ônibus, bicicletas e pedestres, sendo fácil o deslocamento do bairro para as demais áreas da cidade.

Figura 04: Diagrama de usos - Rua Benedito Lino do Carmo, Bairro Congós.Fonte: Elaborada pelas autoras

Figura 05: Diagrama de acessos e vias - Rua Benedito Lino do Carmo, Bairro Congós.Fonte: Elaborada pelas autoras

É um bairro considerado periférico que integra um eixo comercial significativo no contexto da capital, dando continuidade à Rua Claudomiro de Morais e ao bairro Novo Buritizal. Dotado de ocupações consolidadas e irregulares (Figura 06), possui em sua estrutura uma grande área úmida onde se consolidou uma ocupação irregular, denominada Ressaca Chico Dias, que se estende até o bairro vizinho, Novo Buritizal. Esta região é considerada um assentamento humano localizado em área de proteção ambiental e que teve sua ocupação intensificada no início da década de 90, principalmente pela população de baixa renda recém-chegada ao estado do Amapá. (PORTILHO, 2006, p.112).

Figura 06: Diagrama de tipologia de ocupação - Bairro Congós.Fonte: Elaborada pelas autoras

É uma área que possui uma população consolidada, segundo o IBGE (2010) estimada em 18.636 pessoas. Percebe-se que há uma comunidade organizada, onde foram identificadas duas organizações de bairro: a associação de moradores do Congós e o Grupo Congós 100% Paz, ambos objetivam reivindicar melhores condições para o local. A área foi priorizada devido à existência desse senso de comunidade, característica desejada para moção das pessoas em prol do projeto e devido ao bairro atualmente se encontrar fragilizado quanto sua gestão urbana e manutenção, havendo parte de sua infraestrutura degradada, ruas sem asfaltamento ou asfaltamento comprometido, precária manutenção de espaços públicos, grande quantidade de lixo em toda a extensão de seu canteiro e do bairro, bem como altos índices de violência urbana.

O PROCESSO DE INTERVENÇÃO

A linha do tempo abaixo (Figura 07) mostra o processo construtivo da intervenção, desde as discussões inicias em sala de aula para a definição da ideia do projeto até a avaliação da intervenção e seus resultados imediatos, elaboração de diagramas para auxílio de análise e a posterior apresentação do projeto em sala de aula, como última etapa do processo.

Figura 07: Linha do Tempo – Projeto “Cor e Vida”.Fonte: Elaborada pelas autoras

A linha do tempo parte da discussão e escolha do tema da intervenção (a relação do cidadão com a cidade) e da ação a ser realizada, partindo em seguida para a definição da área de atuação (bairro Congós, Rua Benedito Lino do Carmo, trecho do canteiro central em frente à igreja Maria Mãe da Igreja), levando em consideração sua importância no contexto da cidade e todos os seus aspectos relacionados à infraestrutura urbana e sendo de comunidade. Com estas decisões tomadas, partiu-se para a etapa seguinte, onde a equipe elaborou um panfleto para distribuição no entorno imediato da área visando convidar a comunidade a participar do processo.

No terceiro momento houve a arrecadação e recolha de materiais necessários para a elaboração dos equipamentos previstos, com o intuito de realizar a implantação no mesmo dia, porém devido às condições climáticas inapropriadas a equipe decidiu por adiar para o dia seguinte a intervenção. Com o material já confeccionado o grupo iniciou a intervenção no domingo, dia 31 de Janeiro de 2016, pelo período da tarde, durando  aproximadamente 5 horas e 30 minutos (Figura 08). Ao termino da atividade, a equipe foi abordada pelo líder da associação dos moradores, pois o mesmo mostrou interesse pela iniciativa e assim ele convidou a equipe a fazer uma pequena entrevista para divulgar a atividade.

Figura 08: Linha do Tempo – Dia 31.01.2016. Fonte: Elaborada pelas autoras

Dias após a intervenção no local, a equipe dedicou-se a investigar como o projeto impactou no cotidiano da comunidade e na apropriação do cidadão em relação ao espaço público em questão, além da análise do site de intervenção em relação à diversos aspectos, tais como: os usos do entorno, tipos de via, mobilidade, acessos, tipologia de ocupação, para melhor compreensão do meio escolhido e dos resultados ali observados, consolidando por fim uma apresentação de toda a experiência e a produção de um artigo.

A COMUNIDADE E O PROJETO “COR E VIDA”

Como em qualquer intervenção urbana, o foco crucial de análise foi a interação entre o projeto e as pessoas que o percebem, o diálogo entre objeto e usuários, princípio este proposto para realização de uma experimentação para percepção da cidade, na qual o tipo de intervenção, em si, pouco importa. O que se pretende estudar é qual será o impacto causado pelo projeto na cidade, no bairro (espaço em maior ou menor escala) e consequentemente na comunidade que a compõe.

O projeto Cor e Vida visa mostrar para a comunidade do bairro Congós que cuidar de um espaço público é responsabilidade de todos, tanto dos governantes como dos próprios usuários da área. A consciência do efeito causado pela coparticipação é essencial para que o cidadão se motive a colaborar com ações que preservem e valorizem espaços que são de interesse e uso comum. Entretanto, esta é uma noção pouco vista entre a população que mora em áreas de infraestrutura fragilizada. Assim sendo, a atividade buscou tornar oportuno um diagnóstico da postura da comunidade por meio de dois momentos distintos: o convite à população através da panfletagem e a própria revitalização da área escolhida.

Em uma análise geral, as reações dos populares quanto à intervenção foram variadas, expressas por meio de falas proferidas direta e indiretamente para o grupo, ou apareceram como olhares e gestos, que se dividiam entre apoiadores, curiosos e questionadores, ações que por vezes chegaram a intimidar a equipe, o que não impediu a realização e término da atividade.

  • Dia 28 de Janeiro de 2016: a panfletagem

A área escolhida para a intervenção é situada em um trecho da rua Benedito Lino do Carmo que tem caráter comercial. Em função deste caráter, se optou por um dia da semana, no horário da tarde (com início às 14:30), o qual deveria ter grande fluxo de pessoas para abordá-las e convidá-las a participar da atividade. Foram foco de abordagem pessoas que circulavam pela via, paradas de ônibus e estabelecimentos comerciais em funcionamento.

Algo que chamou a atenção do grupo logo ao chegar ao local foi a ausência de fluxo de pessoas e veículos. Além disso, apesar de estarmos lá em horário comercial, a grande maioria dos estabelecimentos ao decorrer da via encontravam-se de portas fechadas. Por esses motivos, a distribuição dos 80 panfletos prevista para durar entre trinta minutos e uma hora demandou mais de uma hora e meia para ser feita, já que os primeiros momentos foram de baixo trânsito de pessoas e poucos estabelecimentos para servirem como ponto de distribuição.

Com relação à abordagem, pensou-se em um discurso único para tentar convencer os moradores a colaborarem com o projeto. No entanto, apesar de o convite ter sido feito da mesma forma a todos, as reações foram bastante variadas. A aproximação e a fala iniciavam com uma apresentação do grupo como estudantes de arquitetura da Universidade Federal do Amapá e com a explicação da proposta e do que nos motivou a fazê-la. Em seguida, era feito o convite para a participação do morador, expondo a necessidade de colaboração com a mão-de-obra, a não obrigatoriedade da participação e que, apesar disso, seria muito interessante ter a ajuda dos próprios moradores, que desfrutam diariamente e se apropriam do espaço. Com algumas pessoas não foi possível nem o diálogo, já que, ao perceber nossa aproximação, desviavam o caminho afastavam-se o suficiente para evitar o encontro.

Em resposta, a maioria das pessoas demonstrava certa satisfação pela realização de algum projeto voltado ao favorecimento da comunidade que, segundo eles, não é visada por ser periférica, porém poucos se mostraram dispostos a participar da montagem. Houve momentos em que moradores sequer compreenderam a proposta, apresentando expressões vazias e falta de olhar crítico.

- Há algumas respostas que, em particular, chamaram a atenção:

  • Ao abordar uma senhora que descia do ônibus e explicar o convite, ela mostrou muita vontade em contribuir, e disse que chamaria “os meninos do projeto de luta que tem por ali”, que obedeceriam ao convite se fosse feito por ela.
  • Já uma outra senhora, acompanhada de sua família, demonstrou certa agressividade ao ser abordada, dizendo “vocês acham que eu não trabalho? Que não tenho nada mais importante para fazer nesse horário?”, mostrando que pouco lhe importava cuidar de uma  área que, apesar de estar por fora dos muros de sua casa, a pertence.
  • Outra curiosidade se refere ao ponto de referência que usávamos para identificar o local de atuação: em frente à igreja Maria Mãe de Deus. Ao citarmos a paróquia, alguns moradores expressavam desconforto, e em seguida perguntavam se isso seria uma “ação da igreja católica”, demonstrando algum conflito e oposição a contribuir com qualquer que seja a atividade, mesmo o beneficiando, caso fosse de iniciativa da igreja.
  • Durante a distribuição dos panfletos, já foi possível observar o pouco interesse da população local em promover a ação e, ainda, nos possibilitou pressupor que o número de colaboradores seria muito pequeno.
  • Dia 30 de Janeiro de 2016: dia marcado para a execução do projeto

O grupo se encontrou no dia marcado pelo horário da manhã para adiantar ao máximo o trabalho, de forma que a intervenção a tarde se limitasse à montagem do jardim. Foi feita a reunião dos materiais que seriam utilizados, os quais foram limpos, lixados e pintados (Figura 09). Entretanto, durante esta parte da ação, a chuva torrencial mostrava que as condições da área escolhida não seriam favoráveis à ação, já que o solo não seria capaz de drenar toda a água até o horário marcado.

Figura 09: Coleta e tratamento de materiais.Fonte: As autoras, 2016.

À vista disso, o grupo cancelou a ação por circunstâncias climáticas na data marcada (adiando-a para uma tarde não determinada que fizesse sol), e se viu na obrigação de avisar aos que possivelmente se dispusessem a colaborar. Foram, então, ao local na hora marcada para a intervenção. Para a surpresa da equipe, não havia ninguém para fazer parte da intervenção.

  • Dia 31 de Janeiro de 2016: dia da realização da intervenção

Um dia após a data marcada, viu-se boa oportunidade finalização da intervenção, o tempo seria favorável para a montagem. Logo na chegada ao local, ainda descarregando os materiais do carro, já presenciamos o primeiro conflito: o fato de sermos cinco meninas carregando sacas de caroço de açaí e de terra, latas de tinta, pneus, pallets, mudas de plantas e pás causou um certo alvoroço entre alguns homens que estavam ali próximos, em um bar. Olhares e palavras proferidas à nós nos causaram muito desconforto, o que não nos impediu de seguir com os afazeres. Observa-se, ainda sobre estes mesmos homens, que apesar de conseguirem assimilar a grosso modo o que iríamos fazer, não tomaram nenhuma iniciativa para colaborar ou participar. Apesar disto, o começo da atividade foi brando, dado o fraco fluxo de pedestres, ciclistas e automóveis.

Passado certo tempo do início do trabalho, um destes homens vem em nossa direção, com um tom de voz muito agressivo, indagando se tínhamos permissão para fazer aquilo. Sem entendermos, perguntamos qual tipo de permissão ele se referia, e a resposta foi tão surpreendente quanto a indignação daquele morador para com a intervenção: ele queria saber se o “prefeito” (interpretamos como alguém semelhante a um presidente de bairro), tido por ele como o proprietário daquela área pública, tinha conhecimento do que estava sendo feito, e se teria permitido aquilo. Ao assumirmos uma postura de neutralidade apesar da hostilidade daquele que nos falava, fizemos com que aquela manifestação se cansasse até sessar.

O fluxo de pessoas foi aumentando com o avançar das horas e, com o segmento da ação, fomos presenciando mais curiosos, que questionavam se éramos representantes do governo, da prefeitura, se éramos da igreja. A resposta de sermos apenas estudantes querendo melhorar aquele espaço resultou muitas vezes em expressões de alívio e contentamento, mas nenhuma vez em cooperação ou solidariedade.

Por volta das 17 horas um grupo de meninos começou a brincar por ali, empinando e correndo atrás de pipas. Logo reconhecemos dois deles: Eram o Jonatan e Israel, que tínhamos conversado e convidado para participar da ação no dia da panfletagem. E eles mesmos, em meio a outros tantos meninos, protagonizaram mais um conflito: uma série de xingamentos e agressões físicas entre eles foram feitas em meio à instalação, intimidando-nos. Porém logo foram controlados por adultos que passavam por ali e chamavam a atenção deles, que foram para casa.

Algum tempo depois, um deles volta. Era o Jonatan, propondo-se a nos ajudar. A partir dali ele participou de todo o processo que faltava: limpou parte do mato, ajudou a carregar sacas de terra e caroço de açaí, plantou as mudas e pintos os bancos. Jonatan se dispôs a assumir todos os afazeres até a conclusão da atividade. E mais ao fim do processo, Israel, um outro garoto, também voltou para apoiar a causa.

Figura 10: Participantes do projeto.Fonte: As autoras, 201

Mesmo sem entender do que se tratava a ação, aqueles meninos doaram ao espaço público um pouco do seu tempo. Tomaram aquele lugar como seu e, assim, de sua responsabilidade. Jonatan e Israel provaram que é possível e muito gratificante se dispor a fazer um pouco para cuidar do que é de todos. Eles, sendo duas crianças, captaram, mesmo sem saber, a ideia central do projeto.

Por fim, uma reação muito significativa: um senhor chamado Jhonny (Presidente do conselho fiscal da associação de moradores do Bairro Congós) se aproximou e perguntou do que se tratava a atividade, e ao explicarmos, perguntou por quanto tempo mais ficaríamos ali, já que queria buscar alguém para mostrar aquela ação. Tempo depois ele volta com o presidente da associação do bairro, o Sr. Nildo Costa, que logo expressou seu contentamento ao presenciar o processo de implantação. Em conversa, o Sr. Nildo perguntou tudo a respeito do projeto: quem éramos, de onde éramos, o que nos motivou a fazer aquilo e quais os nossos objetivos com aquilo. Expôs para nós a satisfação pelo fato de termos escolhido aquela área, já que se tratava de um bairro periférico, muitas vezes esquecidos pelas autoridades ou até mesmo por propostas semelhantes àquela. Relatou também uma iniciativa da própria comunidade com a criação de um espaço para o cultivo de mudas de ipê, os quais foram plantados ao decorrer do canteiro no bairro.

O presidente nos entrevistou, e publicou a conversa no Grupo Congós 100% Paz, através aplicativo Whatsapp e formado por grande parte dos moradores do bairro, no intuito de divulgar a ação e disseminar a ideia.  O Sr. Nildo entrou em contato conosco alguns dias depois, para informar que a ação tinha tomado tamanha proporção que seria publicada uma matéria no Jornal do Dia. A publicação foi feita no dia 04 de fevereiro de 2016, quatro dias após a ação.

“]

Figura 11: Reportagem publicada na mídia amapaense sobre o projeto. Fonte: Jornal do Dia[4

RESULTADOS

Durante todo o processo de planejamento e realização do projeto, foram constatados diversos resultados através de uma atividade dedicada principalmente a colocar uma comunidade e a própria equipe como agentes de transformação de uma parcela da cidade. Considerando a experiência como um todo, pode-se afirmar que o grupo alcançou sucesso na implantação da intervenção, porém o fator mais desejado, que seria a interação das pessoas com o meio, não ocorreu como o esperado.

Não sabendo ao certo os motivos de tal reação, cabe apenas pressupor que mesmo com algumas demonstrações de curiosidade, a ação realizada causou mais “estranheza” do que comoção na comunidade, que se viu receosa em relação à intervenção e não se motivou a ajudar, ou ao menos, questionar sobre o que se tratava. Apesar de inesperado tal resultado não invalidou a proposta, apenas trouxe para o grupo uma diferente perspectiva de análise e reflexão a respeito da relação entre cidadãos e a cidade.

Durante a intervenção percebeu-se que há um grande fluxo de pessoas e usuários na área, os quais aumentam gradativamente conforme o passar das horas, com a amenização do calor e do sol. Sendo assim, infere-se que há fluxo e utilização regular do local independentemente de sua qualidade urbana. Infelizmente, mesmo com a situação de degradação do espaço público de uso da comunidade, não há qualquer ou pouca sensibilização da população para que possa gerir ações de melhoria e qualificação.

Se por um lado houve resistência em se envolver na atividade e qualificar o espaço, por outro percebeu-se a utilização frequente do local e o cuidado e preservação dos objetos instalados (mudas de plantas, floreiras, pallets), o que infere que há a valorização de um ambiente tratado e de bem estar, contudo a população em si não demonstra interesse em executar tal ação e muitas vezes se contenta em conviver com espaços degradados, apesar da apropriação que a comunidade de entorno já possui com o canteiro.

Para a cidade como um todo, talvez passe despercebido a atividade que foi exercida, pelo tamanho reduzido de espaço em que foi executada, porém um pequeno gesto pode e deve gerar incentivar outras ações. A comunidade agora dispõe de um espaço mais limpo e higiênico do que os outros encontrados no canteiro, com cores vibrantes e alegres, e alguns mobiliários urbanos diferentes dos que se deparam frequentemente pela cidade. Com a associação dos moradores tendo conhecimento sobre a interferência da equipe naquela área, foi realizado o convite de continuação do trabalho, o que se demonstra que o trabalho teve resultados substantivos e consideráveis, ainda que com pequena parcela da comunidade.

Os resultados não foram percebidos e concluídos unicamente no dia da intervenção, sendo frutos de um conjunto de elementos revelados ao longo do planejamento, execução e observação, desde o dia da panfletagem a atividade e o uso realizados hoje. O mecanismo de intervenção trouxe um sentimento de responsabilidade, cidadania e satisfação para o grupo, sentimentos esses que incentivam a ampliar a iniciativa e dar continuidade ao projeto, alcançando cada vez mais áreas da cidade e sensibilizando a população em prol do cuidado e manutenção do bem público, de todos, em prol da qualidade urbana e do bem estar social.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A participação das pessoas na montagem do projeto “Cor e vida” seria uma oportunidade de se perceber o quão simples é fazer parte da cidade não como “simples” moradores e usuários, mas como cidadãos conscientes e ativos que se propõem a colaborar e fazer um ambiente urbano melhor. Porém o que se observou foi o grande descaso com os espaços públicos, tanto por parte das autoridades quanto pela própria população. A experiência prova que é difícil mensurar a reação das pessoas quanto a algo, e que a cada ação como esta não devemos esperar um “comportamento ideal”, onde somente a partir de uma vivência prática, em detrimento da vivência puramente teórica e acadêmica, somo capazes de testar e perceber os reais impactos e resultados de uma intervenção como esta.

O objetivo do projeto foi alcançado quando pudemos visualizar que uma pequena ação foi capaz de ilustrar vários problemas urbanos e sociais, com foco à falta de interesse e preocupação para com áreas de uso público e comum. Há certa indiferença às condições em que os elementos urbanos se encontram, onde as pessoas vivenciam mobiliários urbanos destruídos, falta de sinalização, iluminação que não funciona, e a falta de áreas adequadas para convívio, contudo ainda assim, pouco fazem para colaborar com a recuperação de um desses espaços. Percebe-se que é sempre esperado que outrem faça algo, contudo , o projeto permaneceu intacto por dias após a montagem, despertando o mínimo de interesse em pelo menos preservar aquilo que lhes foi dado.

Apenas duas crianças se dispuseram a ajudar, inferindo-se que elas apesar de sua pouca idade perceberam a importância de se criar um ambiente urbano melhor, trazendo uma perspectiva otimista quando se pensa que farão parte da geração responsável pelo futuro de nossas cidades, o que ao final de tudo foi o um dos resultados mais válidos da intervenção, saber que alguém foi conscientizado e que pode se tornar um multiplicador da ideia, apesar das adversidades encontradas. Tal reação reforça o pensamento que moveu todo o projeto desde seu início, o qual vê no ser humano o fator fundamental para moção de transformações e mudanças da cidade e no mundo.

REFERÊNCIAS

BRASIL. Estatuto da CidadeLei 10.257 de 10 de julho de 2001. 3. ed. Brasília: Câmara dos Deputados, Edições Câmara, 2010.

DIAS, Fabiano. O desafio do espaço público nas cidades do século XXI. Arquitextos, Texto 061.05. São Paulo, Portal Vitruvius, jun. 2006. Disponível em: <http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/06.061/453>. Acesso em: 01 mar. 2016.

GAMBOA, Talita. O parque no Vidigal que ganhou prêmio internacional. Disponível em: <http://menos1lixo.virgula.uol.com.br/sitie-parque-ecologico/>. Acesso em: 29 Fev. 2016.

GAVASSA, Natássia. A cidade de Jane Jacobs e o planejamento urbano. Resenhas online, texto 137.02. São Paulo, Portal Vitruvius, maio 2013. Disponível em: http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/resenhasonline/12.137/4736>. Acesso em: 01 mar. 2016.

Geomeridium. Mudando a cidade: parque ecológico Sitiê – morro do vidigal (RJ). Disponível em: <http://geomeridium.blogspot.com.br/2015/09/mudando-cidade-parque-ecologico-sitie.html>. Acesso em: 29 fev. 2016.

História. Disponível em: < http://www.parquesitie.org/historia/>. Acesso em: 29 fev. 2016.

INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA (IBGE). Resultado do Censo 2010. Disponível em < http. www..ibge.gov.br/censo2010/resultados/_do_censo_2010.php>. Acesso em: 01. Mar. 2016.

JACOBS, Jane. Morte e vida de grandes cidades. Coleção a, São Paulo, WMF Martins Fontes, 2000.

OLIVEIRA, Isabel Cristina Eiras de. Estatuto da cidade; para compreender. Rio de Janeiro: IBAM/DUMA, 2001.

PORTILHO, Ivone dos Santos. Áreas de ressaca e dinâmica urbana em Macapá/AP. VI Seminário Latino-Americano de Geografia Física, Coimbra, 2010. Disponível em: < http://www.uc.pt/fluc/cegot/VISLAGF/actas/tema4/ivone>. Acesso em: 01 mar. 2016.

SANTOS, Eloisy. Projeto universitário leva mais cor, vida e consciência ambiental à bairro periférico de Macapá. Jornal do Dia, Macapá. 04 Fev. 2016. Disponível em: < http://www.jdia.com.br/portal2/index.php/noticias/item/2339-projeto-universitario-leva-mais-cor-vida-e-consciencia-ambiental-a-bairro-periferico-de-macapa>. Acesso em: 06 Fev. 2016.


[1] Artigo apresentado sob a orientação da professora Bianca Moro de Carvalho, da Universidade Federal do Amapá, curso de Arquitetura e Urbanismo, para obtenção de nota referente Avaliação Final, disciplina Planejamento Urbano e Regional II.

[2] Disponível em: http://geomeridium.blogspot.com.br/2015/09/mudando-cidade-parque-ecologico-sitie.html. Acesso em: mar. de 2016

[3] Disponível em http://menos1lixo.virgula.uol.com.br/sitie-parque-ecologico/. Acesso em: mar. de 2016

[4] Disponível em http://www.jdia.com.br/portal2/index.php/noticias/item/2339-projeto-universitario-leva-mais-cor-vida-e-consciencia-ambiental-a-bairro-periferico-de-macapa. Acesso em: fev. de 2016

Figura 05: Diagrama de acessos e vias – Rua Benedito Lino do Carmo, Bairro Congós.

deixe seu comentário

* Seu comentário:


nine + 5 =