1 mar

Lembranças de um dia em Mazagão: receptividade e boa fé de uma comunidade.

Em março embarca-se para uma aventura em Mazagão – 4 alunos e 2 professores da Universidade Federal do Amapá decidem partir para o meio da floresta rumo a uma cidade até então conhecida por eles apenas nos livros e fazem uma viagem cheia de descobertas, surpresas e encantos… Saindo de Macapá, Amapá, e após um percurso de aproximadamente uma hora e meia de estrada, ora pavimentada ora não, passando por balsas que auxiliam na travessia de rio, por pontes em concreto e também em madeira, e adentrando a floresta amazônica, chega-se a Mazagão, uma cidade situada as margens do rio Mutuacá, de riqueza cultural sem igual, de gente simples e carinhosa, pronta a receber visitantes interessados em conhecer os ritmos, as músicas, as danças e a fascinante história do local.

Imagens da viagem até chegar em Mazagão.

A Vila de Mazagão foi primeiramente instalada no Marrocos, no início do século XVI, por trás de um objetivo político português. Tornou-se um majestoso forte e alvo dos conflitos entre portugueses e mulçumanos. Com o tempo ficou desfavorável a Portugal manter Mazagão, a Vila inteira então é transferida para Lisboa. É nesse período também que acontece do outro lado do atlântico a colonização da Amazônia, fato esse que fazia necessário a instalação de famílias naquele lugar. A solução encontrada foi transferir Mazagão para o Brasil. Então em 1770 é fundada a Mazagão da Amazônia, para abrigar as famílias dos colonos portugueses juntamente com seus escravos. No entanto, no final do século XVIII, a Vila é acometida por uma epidemia, os poucos sobreviventes decidiram partir e lentamente a floresta foi ocultando a Mazagão da Amazônia, vindo a ser descoberta recentemente algumas ruínas daquela época.

Chegando a Mazagão, surpreende-se a principio com a beleza da região, porém, outro fato que marca bastante é a receptividade daquela população. Nos primeiros instantes já se é acolhido por todos e nota-se que a comunidade é intima da história da cidade, o que torna relativamente fácil encontrar alguém disposto a mostrar a cidade e contar um pouco da história do lugar. Conhecemos, então, a professora Vera – descendente de escravos vindos com as famílias portuguesas – e grande conhecedora da trajetória de Mazagão, que se ofereceu a mostrar e contar tudo o que sabia sobre a cidade.

Professora Vera contando as histórias de Mazagão durante o passeio pela cidade.

Ao caminhar por Mazagão, professora Vera mostrou os principais pontos da cidade, um deles é a Igreja de São Tiago – vale ressaltar que a população possui um afeto religioso intenso e anualmente toda a trajetória de Mazagão é revivida através da festividade de São Tiago – existe o balneário que é utilizado para o lazer da comunidade e a prática do pescado, e tem também a casa mais antiga da cidade – a única remanescente das originais construídas para abrigar as famílias portuguesas. Professora Vera contou as muitas histórias que envolvem a fundação de Mazagão e mostrou alguns dos costumes herdados dos antepassados mazaganenses, como as músicas e as danças, além disso, ela nos presenteou cantando no ritmo do marabaixo – ritmo esse trazido pelos escravos africanos – cantigas que também contam de um jeito emocionante a trajetória, a cultura e as tradições dos mazaganenses. E toda essa riqueza cultural é amplamente passada de geração a geração, para que ocorra cada vez mais essa difusão e valorização da cultura local.

01 – Igreja de São Tiago; 2 – Balneário de Mazagão; 3 – Pescadores chegando da pesca; 4 – A casa mais antiga de Mazagão.

Ao seguir pela cidade, conhecemos o senhor Miguel, dono da venda de açaí e bacaba (frutos típicos da Amazônia) mais conhecida pela comunidade, sem aguardar qualquer visita de turistas, Seu Miguel mostrou-se pronto a nos atender, preparar e servir seus produtos na hora em que chegamos. O único restaurante da cidade também abriu apenas para nos atender, enfatizando o quão os mazaganenses são atenciosos com seus visitantes. E presenciamos a inauguração do curso “Raizes do Marabaixo”, com a realização de oficinas que ensinam a confecção de tambores de marabaixo in natura, tudo com o objetivo de expandir a cultura dos mazaganenses a todos os interessados.

Inauguração do curso “Raízes do Marabaixo” com muita dança e música.

A fé, a crença e os costumes de Mazagão podem ser acompanhados durante o ano todo nos muitos festejos que ocorrem na comunidade. O valor que a população dá à sua história e cultura, e o acolhimento que todos proporcionam aos visitantes é realmente marcante. Na verdade, o que se encontra e o que se leva ao visitar Mazagão é a cultura que passou por continentes, atravessou o oceano e que vive até hoje nos costumes dos moradores. Conhecer Mazagão é enriquecer cultural e espiritualmente – e não se sai da cidade sem levar na mente os batuques dos tambores do marabaixo e a vontade de voltar para sempre descobrir algo a mais dessa jóia encontrada no meio da floresta.

Referências Bibliográficas

VIDAL, Laurent. Mazagão, a cidade que atravessou o Atlântico: do Marrocos à Amazônia (1769 – 1783). Martins Editora Livraria Ltda., São Paulo. 2008.

comentários

Marina 4/3/2011 - 21h 53

O post ficou maravilhoso e é sempre bom conhecer mais sobre a cultura do nosso país. Muito bom mesmo, parabéns!

Fabricio Maciel 4/3/2011 - 22h 04

Parabéns !!! pela grande matéria de muita
credibilidade e informação na escrita … Está muito
bem divulgado as riquezas de Mazagão
…………….

Caroline Sousa 4/3/2011 - 22h 14

Adorei a reportagem. Não conheço Mazagão, mas achei muito interessante. Parabéns.
Adorei mesmo!

Luara 10/3/2011 - 00h 50

nossa… me encanta a riqueza cultural dos lugares lindos que temos, está otimo msmo!

Ana Daniela 12/3/2011 - 16h 00

Que maravilha de cidade Renato e está tão perto de nós. Que cultura rica, ainda bem que a população está repassando para as gerações futura. Já a arquitetura não se pode falar o mesmo das casinhas dos antigos colonos portugueses.

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