22 mai

“Bença”, seu moço!

“Bença”, seu moço!

Convidado para participar de um projeto entre comunidades ribeirinhas para determinada empresa, precisei ir até a Comunidade do Bom Jesus do Rio Mariaí com mais alguns amigos. Sete horas de barco-motor, passando pelo Rio Moura, pelo Furo da Ilha do Tucunaré, Rio Aranaí e outros Rios que não lembro, entramos no pequeno Rio Mariaí. Igual a muitas comunidades ribeirinhas que se espalham por algumas centenas de metros á margem dos rios amazônicos: uma casa aqui, outra acolá, mais uma adiante, outra lá dentro de um igarapezinho miúdo. À medida que o barco adentrava o rio o comandante ia puxando o apito para avisar da chegada. Mas não precisava, o barco já se fazia notar só pelo seu barulhão ecoando no silencioso riozinho. As pessoas, principalmente crianças, furavam as janelas e as portas das casas com suas carinhas curiosas e alegres, acenavam.

À tardinha, no início de uma chuva fina e fria, no quase anoitecendo, aportamos na residência do líder da comunidade. Quatro casas de madeira, velhas e sem pintura, unidas por uma pequena ponte de pouco mais de meio metro de largura e cinquenta de comprimento: duas das casas eram residências e nelas, sem dúvidas, pela quantidade de crianças morava mais de uma família; a outra, uma igreja e, a última, era usada como escola e caía aos pedaços: cheia de goteiras, tábuas faltando nas paredes, as janelas mostravam indícios de já terem sido do tipo venezianas, o assoalho podre com algumas tábuas soltas tapando os buracos, e escutei que o professor e  crianças já haviam caído neles. Era chegando a noite e os moradores já se recolhiam. Cumprimentamos “os mais velhos” e marcamos uma reunião comunitária para o domingo, na igreja logo após a “missa”. “Missa” é só força de expressão. A comunidade é tão-tão distante de tudo, que, é claro, não tinha padre: é alguém da comunidade que lê e comenta alguma passagem bíblica e reza as ave-marias.

Não sei se foi a brisa, o verde das matas ou hipnotizado pela correnteza do rio, dormi como uma pedra. Também não sei se havia carapanã. Acho que não, pois até cair no sono não me senti incomodado por inseto algum. Mas sei que tinha maruins, e muitos! Levantei cedo e assim que saí da rede levei uma surra dos maruins, mas não demorou muito, logo desapareceram.

Logo depois do nosso café com bolacha, os moradores começaram a chegar para a “missa”. Cada família na sua canoa: marido, mulher e uma penca de filhos. Amarravam a canoa, arregaçavam as roupas simples para não molhar e iam subindo as escadas do pequeno trapiche.

Meus companheiros de viagem e eu esperávamos a “missa” acabar para poder entrar e dar início a reunião. Ficamos em frente à igreja numa espécie de pátio que se prolongava até onde nosso barco aportara. Eu aproveitava o dia ensolarado e fresco para fotografar tudo que podia e como ainda não havia visto o acanhado templo de rezas por dentro, deixei meus companheiros conversando e fui até a porta principal para observar melhor sua simplicidade de tábuas novas e limpas. Estava arrumada e bem mais conservada que as residências. A “missa” ia começar e os moradores mais distantes ou retardatários continuavam a chegar meio apressados. Como eu estava parado à entrada da igreja comecei a receber cumprimentos de bons-dias e apertos de mãos dos adultos e “bênças!” das crianças. Meio sem jeito, fui apertando mãos adultas e abençoando as cabecinhas que se apresentavam. Logo foi-se formando aquela fila de pessoas na porta da igreja: os adultos para me cumprimentarem e os pequeninos para pedirem minhas bênçãos!

Meus companheiros, de longe, sorrindo discretamente fizeram sinais para que eu me afastasse da porta, o que consegui com certa dificuldade varando e desfazendo a fila.

O jeito daqueles adultos e crianças de demonstrarem respeito e consideração com um desconhecido me deixou com o peito peado por um nó.

Lembrei que na infância eu também agira daquela mesma forma: pedia a “bênça” dos meus pais quando dormia e acordava, quando ia ou voltava de qualquer lugar; pedia a “bênça” do padre, dos padrinhos e madrinhas, das tias e tios ou qualquer desconhecido que frequentasse nossa casa ou que visitássemos.

Coisa do século que passou …

Fiquei pensando: não nem tente fazer os jovens da cidade compreenderem o como e o porquê da bênção. Para eles, bênção é só símbolo de autoridade para quem dá e de submissão de quem recebe. Inadmissível para tempos tão democráticos e tão apressados…

Logo após a reunião retornamos. Viagem tranquila. Sem balanços! Só brisas!

Ainda faltavam cerca de duas horas para a chegada quando avistamos, ao longe, as luzes da cidade refletindo nas águas do rio. Corri até o telefone celular e fiz a primeira ligação depois de 36 horas longe de Macapá.

Depois de algumas tentativas, a ligação completou-se.

Foi uma bênção dos céus!

comentários

Hedvaldo 23/5/2011 - 14h 52

Belíssimo trabalho, Porto! Narrativa muito bem elaborada, cuja leitura leva a comtemplar as belezas rústicas da amazônia. Você, que já brilha no campo das artes plásticas, agora envereda muito bem na literatura. Parabéns!

josiane 23/5/2011 - 15h 03

poxa Porto… quanto mais te conheço descubro o quanto você é talentoso, talento que está se perdendo nessa cidade onde os artistas não são reconhecidos por seus talentos, mais por puxarem o saco dessa corja de políticos corruptos. Me orgulho muito de você!!! Parabéns.

Santiago Junior 24/5/2011 - 12h 29

Amigo!!! Tu és Porto ao atracar em navios alheios… Texro muito bem dissertado. demonstra essência, textura visual e acuidade natas de um multiartista. Parabéns é pouco. Deverias lançar um livro. Por que não pensas nesta possibilidade. Em Julho darei um pulinho aí em Macapá, gostaria de reencontrá-lo para botarmos a prosa em dia. Fuiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
Ass:. Santiago Junior

Renato Lobato 28/5/2011 - 16h 08

Lindo texto, professor Porto. Uma narrativa fantástica sobre a simplicidade dos povos da Amazônia. Parabéns.

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