28 mai

Entrevistamos Javier Moro, autor de “Caminhos de Liberdade”

Javier Moro escreveu sobre a vida de Chico Mendes.

Caro Javier Moro, esta entrevista traz perguntas de professores e estudantes de arquitetura e urbanismo da Universidade Federal do Amapá. O livro despertou muita curiosidade nos alunos e pedimos gentilmente que o senhor responda algumas perguntas.

Renato Lobato-Atualmente, a história de Chico Mendes e sua luta pela defesa dos direitos dos seringueiros é conhecida mundialmente; muito disso se deve ao seu livro; no entanto, como foi para o senhor tomar conhecimento desta importante passagem da história brasileira (o ciclo da borracha e todo o processo migratória que atraiu milhares de pessoas para a região), e qual fator (ou fatores) que o levaram a escrever o livro?

Javier Moro-Sou antropólogo por formação e sempre me interessei pelas culturas amazônicas. Estava no Brasil e dezembro de 1998 realizando uma pesquisa sobre o antropólogo norte-americano Darrell Posey e sobre o chefe dos Caiapós Paiakan (ambos hviam sido acusados de sabotar a construção de uma represa hidroelétrica e estavam ameaçados de morte) quando mataram Chico Mendes. Tomei o avião e cheguei no dia do enterro. O que vi, o ambiente que palpei, a história que descobri sobre todos esses seringueiros me emocionaram. Decidi ficar para documentar tudo o que descobria, com a ideia de compilar em livro todas esses histórias amazônicas. Logo, com a ajuda da abundante bibliografia que existe sobre a região, pude reconstruir a epopéia da borracha e o resto…

Bianca Moro de Carvalho- Ficamos curiosos com a riqueza de detalhes das paisagens e da vida dos moradores da Amazônia; achávamos que o filme Fitzcarraldo dirigido por Werner Herzog tinha sido a maior ousadia de vivenciar uma história na Amazônia, mas seu livro supera tudo isso. Como você chegou a essa riqueza de detalhes?

Javier Moro-Simplesmente porque passei dois anos viajando pela Amazônia tomando notas e realizando entrevistas, antes de começar a escrever o livro. Morei com uma família de seringueiros para poder descobrir como era a vida deles, estive com alguns garimpeiros, alternei com fazendeiros em Redenção (Pará) e Rio Branco; fui hóspede do bispo Moacyr Grechi e de Gilson Pescador que me contaram sua vida em casa. Para escrever, preciso conhecer os lugares, sentir seu cheiro, escutá-los, senti-los.

Suéllen Conceição-Caminhos da Liberdade está relacionado com o principal objetivo dos personagens da história em busca de uma Amazônia com valores ambientais e democrática. Você acredita que para defender algo gigantesco é fundamental ter paixão? Isso ocorreu e ocorre com Chico Mendes e os demais personagens envolvidos na saga do livro?

Javier Moro-É preciso ter paixão para tudo na vida. Mas, além da paixão dos personagens, há o conflito de interesses das populações em geral.

Renato Lobato- A Amazônia é uma das maiores riquezas da humanidade e, pelo que foi lido no livro, o senhor é grande conhecedor desta realidade; no entanto, muito ainda precisa ser feito, tanto em questões sociais quanto ambientais. Dentro deste contexto, qual a sua opinião para os próximos caminhos de liberdade para a Amazônia, a fim de torná-la cada vez mais relevante tanto para os brasileiros quanto para o mundo?

Javier Moro-É importante chegar a um pacto social para preservar a floresta. Os interesses que estão em jogo entram em conflito uns com os outros. Os pobres precisam de terras, os indígenas também; não se pode deixar de atender às necessidades das pessoas. Creio que somente com base na racionalização das necessidades das pessoas se pode chegar a um acordo. A Amazônia sobreviverá se os homens entrarem em acordo sobre a forma de exploração.

Bianca Moro de Carvalho -Mary Allegreti é outra pessoa de importante destaque na formação da figura de Chico Mendes. Não seria ela a verdadeira guerreira que abriu novos caminhos para os povos da Amazônia?

Javier Moro-Mary Allegreti fez muito para que o mundo conhecesse a realidade dos seringueiros. Faz tempo que não tenho notícia dela. Gostaria de vê-la de novo.

Suéllen Conceição e Neto Soares-A liberdade é um caminho alcançado através da educação. O saber transforma a vida das pessoas. Exemplo disso é Marina da Silva que, nas ultimas eleições para presidente, ficou em 3º lugar com uma votação expressiva. Na sua opinião, de que forma as informações e a educação podem se tornar mais acessíveis? E como se pode viabilizar a conscientização da população amazônica priorizando os direitos humanos e as questões ambientais?

Javier Moro-O Brasil alcançou enormes progressos no campo da educação e da cesta básica e tudo isto… A educação obrigatória é fundamental, mas creio que no Brasil já existe. O que acontece é que o país vem de um passado de enorme pobreza que, felizmente, está se reduzindo. O tempo urge. Também não sou especialista em temas educativos para poder dar uma boa resposta. Sou apenas um contador de histórias.

The Green Club-Agradecemos a sua participação especial. Foi uma experiência enriquecedora para aqueles que nasceram na Amazônia e não conheciam a história de Chico Mendes e esperamos que a Amazônia sempre esteja presente em sua literatura. E como fãs, temos a curiosidade de saber quais são os seus projetos atuais?

Javier Moro-Estou escrevendo um livro sobre o primeiro império no Brasil. É uma história romanceada e espero que gostem. Também creio que o livro ajudará a entender as raízes dos brasileiros de hoje. Espero que esteja disponível em princípios de 2012.

Foi um prazer estar com todos vocês. Para qualquer informação, já sabem onde me encontrar.

Abraços

Javier.

comentários

Marcus sander 5/9/2011 - 10h 37

Gostei muito de ler a entrevista, pela oportunidade de entrar em contato com este grande autor, Javier Moro, de cujos livros adoro. Gostei muito dos livros dele sore a Índia e fiquei muito feliz ao ler o livro sobre o Chico Mendes. Estou na metade da leitura e a riqueza de detalhes da história tem me impressionado e me feito pensar bastante. Sou de Minas Gerais, mas me solidarizei com as pessoas do norte do país. É preciso divulgar esse livro, com uma história tão pujante…

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