24 fev

Entrevista com o professor José Júlio Ferreira Lima

José Júlio Lima possui graduação em Arquitetura pela Universidade Federal do Pará (1986), mestrado em Arquitetura – Fukui University (1991), mestrado em Desenho Urbano – Oxford Brookes University (1994) e doutorado em Arquitetura – Oxford Brookes University (2000). Atualmente é professor associado I da Universidade Federal do Pará e pesquisador da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Tem experiência na área de Planejamento e Gestão Urbana e Regional, com ênfase em Técnicas de Planejamento e Projeto Urbanos e Regionais, atuando principalmente nos seguintes temas: planejamento urbano, desenho urbano, desenvolvimento sustentável, habitação popular e política de saneamento.

Professor José Júlio Lima dentro da sala do mestrado da UFPa.

Renato Lobato: Como um grande pesquisador que você é e tendo um trabalho de amplo reconhecimento ao longo de sua carreira profissional e acadêmica. Conte-nos sobre a importância das especializações e pós-graduações na formação do profissional que deseja atuar na área da pesquisa.

Professor José Júlio Lima: A pós-graduação é fundamental para o desenvolvimento da pesquisa. Os alunos durante a graduação crescentemente estão se interessando por bolsas de iniciação científica, o que é muito bom. Os cursos de especialização são o primeiro passo para um aprofundamento de estudos que não existe na graduação. Em arquitetura, a formação é muito generalista, não considero um problema, porém, para a pesquisa é necessário um foco maior em uma área de trabalho mais específica. Os cursos de mestrado e doutorado, especificamente em arquitetura teriam dois grandes focos, um mais acadêmico e outro profissional. Acredito que tanto para um como para outro é muito importante a experiência depois de formado. Até mesmo a crítica e a história de arquitetura necessitam que o arquiteto passe por um período de amadurecimento. Se antes era necessário ser depois de formado, agora já durante a graduação é possível desenvolver pesquisa e começar logo a refletir, ler autores mais aprofundados, ou seja, “fazer a cabeça” mesmo antes de formado.

Renato Lobato: Tratando-se do Urbanismo, grandes países, como o Japão, enfrentaram graves dificuldades estruturais durante o seu processo de desenvolvimento econômico e conseguiram solucionar os problemas espaciais através de inteligentes soluções que envolviam uma arquitetura moderna e arrojados projetos de engenharia. Como você avaliaria os problemas urbanos das cidades brasileiras e quais seriam as melhores formas para solucioná-los?

Professor José Júlio Lima: A questão é fundamentalmente o entendimento de que o desenvolvimento econômico e a ocupação espacial passam por uma discussão que não é apenas resolvida por meio de um projeto de engenharia ou de arquitetura. A arquitetura e a engenharia são atividades que podem e devem ser encaradas como viabilizadoras de um planejamento de desenvolvimento. Há de se considerar que o crescimento econômico do período em que o Japão se desenvolveu mais na década de 1980 ainda vivia-se em um mundo em que o capital não era globalizado, que as cidades ainda não tinham assumido um papel tão importante na circulação de capital, explicando, os problemas urbanos são de várias escalas, é importante que saibamos que há alguns atribuídos ao nível de desenvolvimento econômico e de dependência dos cidadãos de um mercado de trabalho não sustentável na medida em que há poucas oportunidades de formar uma economia mais consolidada. Outros problemas, como a localização de favelas por um lado e de um mercado imobiliário agressivo em outro necessitam ser tratados por políticas públicas redistributivas. As cidades são espaços onde essa possibilidade é uma realidade. Não se trata de uma solução física apenas, há de se integrar os vários interesses, que são basicamente econômicos e políticos, para investir e conseguir manter os serviços urbanos em um nível de equilíbrio que possa garantir que o mercado não comprometa possíveis ações do poder público e da iniciativa privada para resolver os maiores problemas urbanos com transporte, moradia, saúde e segurança.

Alunos do mestrado em reunião com o professor José Júlio Lima.

Renato Lobato: Professor, uma de suas dissertações de mestrado, intitulada “A Neighbourhood plan for upgrading a bairro of Belém” e sua tese de doutorado “Regulatory instruments and urban form: searching for social equity in Belém, Brazil”, analisam situações recorrentes a cidade de Belém do Pará. Em suma, quais resultados foram obtidos com tais estudos?

Professor José Júlio Lima: No caso da dissertação de mestrado havia uma preocupação grande com um aspecto do Plano Diretor de Belém que era a formulação do que seria um plano de bairro, na dissertação traduzido como Neighbourhood plan. Na época vivia-se um momento crucial para as cidades, logo após a Constituição de 1988, discutia-se a possibilidade de implementar instrumentos para ampliar a regularização fundiária, aumentar as políticas de urbanização de favelas. Assim, busquei relacionar o campo de estudo do Urban Design com as diretrizes constantes no plano diretor. Para isso escolhi o bairro do Guamá para servir como caso de estudo para refletir sobre qualidades de desenho ao mesmo tempo em que articulava os princípios da redemocratização da cidade. Estou convencido que a dissertação ajudou na discussão por exemplo da relação entre saneamento e urbanização, inclusive hoje trabalho em uma pesquisa financiada pelo CNPq que estuda as bacias de drenagem de Belém, incluindo o bairro do Guamá. Já a tese, pela própria exigência do nível do doutorado, exigia-se um estudo que propusesse uma metodologia própria e um problema também original. Desenvolvi uma metodologia de pesquisa onde a forma urbana é capaz de ser mensurada quanto a sua condição de promover maior acessibilidade e contribuir para diminuição da segregação sócio-espacial, ao mesmo tempo que o conceito de equidade social, também resultado da Constituição de 1988, era analisado ao longo dos diversos planos diretores feitos para Belém. Como resultado, tive a oportunidade de participar da revisão do plano diretor de Belém e na elaboração de outras cidades do Pará. Em todos foi possível trabalhar com a metodologia iniciada no doutorado.

Renato Lobato: Assim sendo, a cidade de Belém, fazendo parte da Amazônia Legal, possui grandes riquezas naturais com fortes tendências econômicas, sendo reconhecida como a “Metrópole da Amazônia”. Dessa forma, quais as principais dificuldades que a cidade enfrenta atualmente no que se refere ao seu planejamento urbano e o que seria mais aconselhável para amenizar tais problemas?

Professor José Júlio Lima: acredito que a cidade de Belém vive um período de crise de gestão urbanística. Há um grande boom imobiliário sem que o arcabouço legal de controle urbanístico dê conta desse processo. As dificuldades são fundamentalmente da falta de articulação entre as políticas públicas e a gestão urbana. Acredito que há recursos disponíveis, o que por si já se constitui em solução, o problema é que os projetos não conversam entre si. Apesar de Belém estar crescendo por meio de novos investimentos para moradia de diversos padrões econômicos, não há uma articulação entre eles e os serviços públicos. Temos que fazer valer instrumentos urbanísticos como a cobrança pelo Solo Criado, Zonas especiais de interesse social e deixar de pensar a cidade aos “soluços”.

Professor José Júlio Lima e alguns dos alunos do mestrado.

Renato Lobato: Outro grave problema que as cidades atuais enfrentam é referente ao déficit habitacional. Programas como “Minha Casa, Minha Vida” auxiliam as famílias carentes através de uma habitação, ainda assim longe dos padrões que uma boa moradia proporciona. Outros programas como o PROSAMIM em Manaus e o Vila da Barca em Belém, já são caracterizados por levarem em conta uma serie de questões importantes, como os costumes dos moradores e trabalhos de ressocialização. Neste sentido, quais soluções você indicaria para os problemas habitações que as grandes cidades enfrentam?

Professor José Júlio Lima: Acredito que os programas habitacionais integrados são caminhos para as soluções, como propus acima de forma integrada. A casa nova em área saneada precisa ter transporte, saúde, educação e criar oportunidades para acesso ao emprego. Não acredito que seja querer muito, afinal é para isso que as cidades foram criadas pela humanidade. O padrão de moradia adequado não é apenas no que se refere a unidade habitacional, o entorno saneado e com acesso garantido necessitam ser considerados. Os projetos de arquitetura ao trabalharem com padrões mínimos precisam ser articulados com ações da prefeitura, estado e União para promover o desenvolvimento dos moradores.

Trabalhos realizados pela cidade de Belém na disciplina de Planejamento Urbano, ministrada pelo professor José Júlio Lima, no curso de graduação em arquitetura e urbanismo.

Renato Lobato: A morfologia urbana, o estudo sobre o desenho que cada cidade deve possuir de acordo com suas características espaciais, é uma questão intrínseca ao melhor planejamento urbano possível. Assim sendo, de que forma projetos grandes e complexos como os de requalificação urbana deve abordar tais características na elaboração de propostas para as cidades?

Professor José Júlio Lima: A morfologia urbana é um campo de estudo não necessariamente prescritivo, apesar de ser utilizado como subsidio para o desenho, a morfologia é fundamentalmente descritiva. A sua relevância para projetos grandes e complexos como os de requalificação urbana devem abordar as lições que o estudo da forma ao longo do tempo pode assegurar. Acredito que no Brasil há um vácuo na condução de projetos de requalificação urbana quando não tivemos como os países europeus o entendimento de que diante da necessidade de reconstruir ou de aproveitar os chamados “cascos” urbanos antigos a morfologia contribuiu para recompor qualidades urbanas em risco de desaparecimento. Assim, apesar de termos tido iniciativas de requalificação urbana, a ênfase, pela própria situação da falta de recursos ou de mal uso dos recursos públicos, havia a ênfase no saneamento ou na engenharia de transportes.  

Renato Lobato: Professor, você tendo orientado várias dissertações de mestrado ao longo dos anos e sendo professor do programa de pós-graduação da Universidade Federal do Pará, como vê as pesquisas que estão sendo desenvolvidas pelos novos mestres e como avalia a importância do mestrado para o desenvolvimento urbano da cidade?

Professor José Júlio Lima: As pesquisas que oriento e as dissertações que já foram concluídas com a minha orientação são caracterizadas pela articulação entre as questões de gestão urbana, planejamento e sempre a aplicação de uma metodologia que trate da forma urbana como um componente fundamental. Apesar de nem todas terem sido no curso de arquitetura, oriento na engenharia civil na interface entre a forma urbana e as ações de saneamento, na geografia buscando investigar os conceitos da disciplina com a aplicação de situações voltadas a gestão do espaço, inclusive avançando para o espaço rural. No programa de pós-graduação em arquitetura da UFPa iniciado em 2010 oriento dissertações que tratam da morfologia urbana diante das novas modificações nos padrões de financiamento da provisão de habitação, na questão da centralidade da forma e em temas que dizem respeito a políticas públicas na cidade, com ênfase na política de habitação em seus vários aspectos. Procuro fazer com que os trabalhos sejam capazes de avançar tanto empiricamente como conceitualmente. Apesar de muitos trabalhos serem baseados na história, é importante avançar conceitualmente e poder incluir aspectos que são trabalhados no dia a dia da gestão.

Ateliê de arquitetura e urbanismo da Universidade Federal do Pará.

Renato Lobato: Para finalizar, aqueles que estão interessados em dar continuidade aos estudos, quais informações você aconselha ao aluno na hora de escolher uma especialização?

Professor José Júlio Lima: Não se trata de aconselhar, mas acredito que seja importante estar conectado nas várias “sub áreas” da arquitetura e do urbanismo para encontrar o que mais interessa. Outra sugestão é ler sobre metodologia de pesquisa. Há uma pressão dos órgãos de fomento da pesquisa nacionais e internacionais pelo aumento da qualidade de pesquisa por meio de um padrão comparável com outras áreas de conhecimento. Lembrar que Arquitetura é uma ciência social aplicada apesar de ter um forte conteúdo tecnológico.

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