13 mar

Entrevista com Frederico de Holanda

Frederico de Holanda é arquiteto pela Universidade Federal de Pernambuco no Brasil, Mestre e Doutor em Arquitetura pela Universidade de Londres. Tem sido conferencista convidado em eventos acadêmicos, tanto no Brasil como em países como China, Dinamarca, Estados Unidos da América, Espanha, Holanda, Japão, México, Moçambique, Portugal, Reino Unido, Suécia e Uruguai. Autor do livro monográfico Brasília – cidade moderna, cidade eterna (FAU/UnB). Foi docente na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de Brasília entre 1972 a 2010 e atualmente contribui com o programa de pós-graduação na orientação de mestrado e doutorado.

A entrevista do The Green Club desse mês conta com a ilustre participação do professor Frederico de Holanda, que nos respondeu algumas perguntas nessa oportunidade.

Professor Frederico de Holanda

T.G.C.-Professor Frederico, o senhor possui uma brilhante trajetória profissional, é um exemplo para estudantes e profissionais de arquitetura e urbanismo. Quais são os caminhos que devemos seguir para alcançarmos o sucesso profissional?

Professor Frederico de Holanda- Descontando a generosidade da observação, o importante é ter mente aberta e não se ater aos dogmas científicos e da profissão. Somente assim avançaremos no conhecimento e na nossa prática. Talvez eu ressalte minha preocupação fundamental, como as coisas que venho escrevendo e publicando o refletem: a arquitetura é uma prática social, que inclui arquitetos individuais de renome, cuja contribuição não pode ser desprezada, mas que inclui uma produção anônima de profundo significado cultura e que está, salvo pouquíssimas e honrosas exceções, fora da literatura arquitetônica.

T.G.C.-A UnB possui uma das mais importantes faculdades de Arquitetura e Urbanismo do país e o senhor certamente colaborou com esse mérito. Qual seu sentimento em relação a isto?

Professor Frederico de Holanda-De alegria por saber que contribuí com a produção de conhecimento que consegui realizar no âmbito da Faculdade,  e de gratidão pelo que, por outro lado, a FAU/UnB me proporcionou ao longo de minha carreira aqui – condições de trabalho, ambiente intelectual estimulante, possibilidade de aperfeiçoamento, pesquisa e crescimento profissional etc.. Como possivelmente já sabem, acabo de me aposentar (2010) mas continuo a contribuir com o programa de pós e com a orientação de mestres e doutores. Até quando puder (e me quiserem lá…).

T.G.C.-Brasília é uma cidade de referência mundial, em 2009 completou 50 anos, e o senhor deu sua contribuição para o país escrevendo o livro “Brasília: cidade moderna, cidade eterna”. Qual o futuro desta cidade?

Professor Frederico de Holanda-A julgar pelas tendências atuais, sombrio, mas dentro de uma perspectiva otimista, não podemos abrir mão de continuar lutando – como vimos fazendo ao longo de décadas, todos os que reconhecem a grande importância da cidade – por dias melhores, pela superação dos problemas atuais, pelo reconhecimento e pela divulgação que as qualidades de Brasília a fazem referência de urbanismo em quaisquer tempos e espaços.

T.G.C.-O senhor coordena o Grupo de Pesquisa Dimensões Morfológicas do Processo de Urbanização (DIMPU), o senhor poderia nos dizer qual o objetivo do mesmo?

Professor Frederico de Holanda-O grupo visa contribuir – e tem contribuído – para valorizar o “caminho de volta” da arquitetura. Uma vez realizada, quais os seus efeitos em nós, e na natureza? É o que chamamos de considerar a arquitetura, no jargão científico, como “variável independente”. Verificamos que a pesquisa mais corrente em arquitetura faz o contrário: tenta entender quais processos econômicos e sociais a determinam. Isso é fundamental. Mas um outro lado, tão ou mais importante, não é tão considerado assim: em que ela resulta, uma vez realizada? como ela afeta a nossa vida? Uma coisa é certa e óbvia: ela nos afeta, uma vez pronta. A tarefa da pesquisa não é discutir se nos afeta ou não. Esta é uma questão há muito superada. A tarefa da pesquisa é descobrir o COMO ela nos afeta, quais os seus atributos responsáveis por quais resultados.

Frederico de Holanda e grupo de doutores formados e orientados por ele: Franciney Frana, Sandra Mello, Ana Paula Borba e Valério Medeiros em Estocolmo, 2009.

T.G.C.-De que maneira , arquitetos e urbanistas podem trazer urbanidade para nossas cidades brasileiras, as quais crescem desenfreadamente , e com sérios problemas de planejamento?

Professor Frederico de Holanda-Não são arquitetos e urbanistas que constroem as cidades – para o bem ou para o mal. Essa é uma visão egocêntrica da profissão que devemos encarar com cautela. São valores e forças sociais, às quais pertencem arquitetos e urbanistas, às quais eles se aliam, a para as quais contribuem. Decerto há indivíduos que deram, num certo momento, contribuição fundamental – e, novamente, tais contribuições não podem ser desprezadas. Mas é preciso entender por que, num certo momento, eles foram capazes de contribuir como o fizeram. Brasília é incompreensível sem a ideologia desenvolvimentista dos anos 1950s, e das forças e valores sociais hegemônicos à época. O que temos de fazer como cidadãos interessados na melhoria das nossas cidades, – e particularmente como especialistas que somos – é ficar “antenados” para com as forças e valores sociais, e ver quais forças e valores são progressistas e a quais nos associaremos visando uma cidade melhor. E não é, também, uma questão de planejamento ou de falta dele. É sempre bom lembrar que poucas vezes se planejou tanto neste país como durante a ditadura militar… A questão é: planejar para quê? Voltamos então à questão das forças sociais, valores etc.

T.G.C.-Qual a foco fundamental na formação dos acadêmicos da FAU-UnB?

Professor Frederico de Holanda-Não há um foco, há focos, no plural, e isso é bom. Podemos, sim, falar de tendências, e de problemas que têm ganhado mais relevo ultimamente, como as questões de tecnologias apropriadas, de desenvolvimento de novos materiais e de reciclagem, de relações entre arquitetura e meio ambiente, da questão do desenho da cidade (campo em que nosso grupo contribuiu historicamente) etc. Há também um núcleo forte de pesquisas em teoria e história da arquitetura, que vem se fortalecendo recentemente.

T.G.C.-A Amazônia é rica em biodiversidade, mas ao longo dos anos está sendo degradada, a ocupação antrópica e a consequente urbanização desorganizada são responsáveis por uma grande parcela disso. De que maneira as academias de arquitetura e urbanismo podem intervir nesse processo?

Professor Frederico de Holanda-As linhas de investigação que citei na resposta anterior decerto podem contribuir. Não sou autoridade em Amazônia, portanto não posso me alongar sobre o tópico. Há excelentes grupos de pesquisa desenvolvendo trabalhos sobre isso. Mas desconfio de qualquer coisa que seja um preservacionismo estreito, que não considere as potencialidades econômicas da floresta, de fato, e há muito, já exploradas, e de maneira ambientalmente adequada, mas de maneira ainda a não contar com o apoio de que deveriam desfrutar.

Frederico de Holanda, grupo de doutores formados e orientados por ele (Franciney Frana, Sandra Mello, Rosa de Lima) e seu supervisor de tese, o professor inglês Bill Hillier no congresso de Sintaxe Espacial em Estocolmo, 2009.

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