23 jun

Manifestações no Brasil: um vulcão em plena atividade

Protesto na cidade de São Paulo (Imagem de Marcelo Camargo, fonte Gazeta do Povo)

Povo dócil e tranqüilo, famoso pelo samba e futebol, o brasileiro tem mostrado que o sangue quente corre nas veias: entrou em erupção. Porém, muitos estrangeiros poderiam mostrar-se surpresos fazendo a seguinte indagação: se a economia vai bem, porque tantos protestos? No exterior, a imagem brasileira se mostrava muito positiva, criticar o Brasil virou sinônimo de inconveniência. No entanto, chegaram as manifestações atuais.

Certa vez, por exemplo, como estudante no exterior, fui criticada ao discordar da política de transferência de renda do país, mais conhecida como bolsa família. Esse projeto ajudou a melhorar a vida de muitas famílias pobres, porém esses brasileiros tornaram-se extremamente dependes do governo, o que os deixou facilmente manipulados eleitoralmente.

Aqui no México, existe uma enorme surpresa dos universitários sobre o Brasil quando afirmamos que o país não está bem. Sendo estrangeira aqui, tento esclarecer: o brasileiro está sofrendo muito, pois o custo de vida está muito alto e tivemos graves problemas de corrupção, envolvendo ministros dos governos Lula e Dilma, além de vários partidos políticos, o que mostra uma conivência desmedida com a corrupção.

Na semana passada, o sociólogo Manuel Castells palestrou em São Paulo, no evento fronteiras do pensamento, e falou sobre o assunto: “Todos estes movimentos, como todos os movimentos sociais na história, são, acima de tudo, emocionais. Não são concretamente reivindicativos. Não é o transporte. Em algum momento, há um fato que traz à tona uma indignação maior… Provoca a indignação e, então, ao sentir a possibilidade de estar juntos, ao sentir que há muitas pessoas que pensam o mesmo fora do quadro institucional, surge a esperança de fazer algo diferente. O quê? Não se sabe. Mas, com certeza não é o que está aí. Certamente, é outra coisa. Porque, fundamentalmente, a maioria dos cidadãos do mundo não se sentem representados pelas instituições democráticas”.

Essas manifestações no Brasil podem ser perfeitamente comparadas às  ocorridas na França, Líbia e Egito, pois têm em comum com o Brasil, o fato de serem mobilizações de redes sociais, com a diferença de não ser um fenômeno internacional. No Brasil nós elegemos democraticamente nossos governantes, enquanto que, na Líbia e no Egito isto não ocorre, a disputa de poder ocorre entre grupos.

No México, onde moro atualmente, o transporte público é praticamente gratuito, o metrô custa 3 pesos equivalente a 0,50 reais. Logo surge uma grande surpresa dos mexicanos sobre o preço do transporte público no Brasil: “vocês pagam 1,5 dólares de transporte público, ou seja, 18 pesos!” Dessa forma é possível ilustrar através do transporte as dificuldades diárias do povo brasileiro. Como dizem os mexicanos: “fue la gota que derramo el vaso”.

Sou parte de uma geração que os pais lutaram contra o regime da ditadura militar, participando do movimento “Diretas Já”. É maravilhoso ver os jovens exigindo direitos fundamentais, contribuindo para melhorar a política no país, reivindicando cidades melhores e exercitando a voz da coletividade. Os eventos internacionais sediados no Brasil serão uma ótima oportunidade para transformar nossas estruturas urbanas. Devemos estar sempre atentos para os poderosos não agirem em proveito próprio. Assim é o Brasil: um vulcão que está em plena atividade!

Manifestações no Rio de Janeiro (Imagem de Marcelo Sayão, fonte Gazeta do Povo)

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