19 abr

Espaço São José Liberto: reinventando a utilização de lugares públicos

Espaço São José Liberto Por João Luccas

O prédio que abriga atualmente o Espaço São José Liberto, em Belém-PA, possui uma rica história. Em 1749 foi construído pelos frades capuchos de Nossa Senhora da Piedade, para ser um convento. Mas com a retirada dos jesuítas do Brasil, o prédio sofreu várias mudanças inclusive funcionais: depósito de pólvora, hospital, olaria, quartel e durante muitos anos presidio, que depois de muitas revoltas foi desativado em 1998, passando por uma grande reforma e reinaugurado com a atual função de Polo joalheiro.

No século XVII, os jesuítas franciscanos foram a Amazônia com intenção de promover as missões em território brasileiro, no entanto, o processo de evangelização exigia uma organização espacial e institucional para abrigar os missionários, a construção imediata de conventos foi à solução adotada. Em 1749, os frades demoliram a antiga ermida e deram inicio a construção do Convento de São José mantendo sua função estritamente religiosa até a expulsão dos jesuítas por Pombal. A educação jesuítica não convinha aos interesses comerciais emanados pelo governo pombalino, ou seja, se as escolas da Companhia de Jesus tinham por objetivo servir aos interesses da fé, o governo pombalino queria organizar a escola para servir aos interesses do Estado.

Cadeia de São José

Cadeia de São José

“Em virtude da expulsão dos frades da Piedade, seu convento de Belém foi ocupado pelo Governo, que lhe deu as mais variadas serventias. Em 1750, o primeiro uso dado foi, como Depósito de Pólvora, depois como Quartel (quando abrigou em suas dependências um Batalhão de Pedestres), depois de um Esquadrão de Cavalaria, e ao tempo do Governador D. Marcos de Noronha, em 1804, do corpo de artilharia, criado pela Carta-Régia de 26 de abril de 1803. Em 1835, o prédio serviu de Hospital, servindo para a acolhida e recuperação dos feridos nas batalhas da Cabanagem. Como muitos feridos estavam sob a tutela da justiça ou sob a guarda da milícia legalista, o prédio em 1843 transformou-se em Cadeia Pública.” Ana Paula Maroja explica.

No século XIX, a cadeia ainda não possuía normas institucionais a serem seguidas, e existia nenhum pudor ao encarcerarem mulheres junto aos homens. Além disso, os senhores de engenho pediam para que seus escravos fossem castigados na cadeia. Durante este período a pena de morte no Brasil estava em pleno rigor, esses condenados não eram separados dos demais.

Capela dentro do monumento por João Luccas

“O São José testemunhou também as últimas horas de presos que, condenados à morte, passavam seus derradeiros instantes no “oratório” antes de serem conduzidos à forca que se erguia no largo de São José, em frente à Cadeia Pública (200, p.15).” COELHO, Allan Watrin.

Depois de passar pelo oratório, eram levados para o largo de São José, que se localizava em frente à cadeia pública, onde eram enforcados a céu aberto, onde cada enforcamento era um acontecimento importante, e que havia todo o interesse da população local.

Em 1943, a cadeia foi mudando e sendo implantadas regras e novas instalações, até se tornar de fato um presídio de segurança máxima. Mas no governo de Magalhães Barata, governador do Estado do Pará, o presídio passava por dificuldades administrativas, logo o governador nomeou Anastácio das Neves como diretor do presídio São José. Durante essa direção, o local passou por reformas tanto no sentido de físico do monumento, ganhando mais um prédio, anexado à primeira construção, quanto na manutenção de suas normas. Esta direção que sofreu várias criticas severas por implantar uma espécie de polícia interna, que era formada por próprios detentos, com objetivo de coibir os excessos e disciplinar os infratores.

Presídio São José

No dia 28 de fevereiro de 1998, durante a missa matinal. Munidos com armas que haviam pegado dos agentes penitenciários e outras artesanais, os presidiários assumiram o controle do presídio. Os rebeldes exigiam um aparato de fuga: munições, coletes, armas e carros rápidos em que pudessem fugir. O presídio de segurança máxima tinha capacidade de 150 presos, enquanto isso havia 300 presos. O Motim terminou com um saldo de quatro mortos e três feridos, sendo que nenhum dos reféns foi morto. Dentre um dos mortos o líder do tumulto José Augusto Viana David, o Ninja. Depois do ocorrido, o presídio foi desativado pelo governo do Estado, e os presos foram transferidos para o Presídio Estadual Metropolitano, no município de Marituba.

Notíciario do fim da Rebelião

Em março de 2001 deram inicio as obras de restauração do antigo presídio, depois de todos aqueles anos servindo de local de privação de liberdade, o prédio que já tivera várias outras funcionalidades, torna-se um dos mais valiosos pontos turísticos do Pará, a inauguração no prédio aconteceu em de Outubro de 2002, sua reforma foi um belo trabalho desempenhado arquiteta Filomena Mata Longo e paisagistas de renome nacionais. O prédio renasce como Espaço São José Liberto, abrigando o Museu de Gemas do Pará, o Polo Joalheiro e a Casa do Artesão.

Por João Luccas

As grades ainda estão mesmos lugares, porém estão abertas para a livre circulação de pessoas. Dentro de algumas selas, estão presentes: placas, fotos, objetos que foram usados pelos detentos e um passado que acaba sendo mostrado a todos os visitantes.

foto de João Luccas

Atualmente o Espaço São José Liberto é administrado pelo Instituto de Gemas e Joias da Amazônia (Igama), Organização Social (OS) qualificada pelo Governo do Estado do Pará em maio de 2007. A OS matém vínculo com a Secretaria de Estado de Desenvolvimento, Ciência e Tecnologia (Sedect) e também é responsável pela gestão pardo Programa de Desenvolvimento do Setor das Gemas e Metais Preciosos do Estado do Pará, mantido pelo governo estadual, promovendo ações de qualificação para designers, ourives, lapidários, artesões e produtores de embalagens artesanais, além de capacitar os profissionais vinculados ao Polo Joalheiro em áreas como comercialização e conquista de novos mercados de joia paraense.

artesanato paraense

REFERENCIAS:

MAROJA, Ana Paula. O ESPAÇO SÃO JOSÉ (BELÉM-PA): Liberto dos grilhões da lei e preso às imagens do tempo. Trabalho de Conclusão de Curso apresentado ao Curso de Educação Artística. 2002.

COELHO, Allan Watrin. São José Liberto: Pesquisa histórica acerca do Presídio São José. Belém: SECULT. 2000.

comentários

Vitor 22/4/2011 - 15h 19

Muito interessante. Belém é de bem com a arquitetura..transforma a tristeza em coisa bonita.

paulo roberto 22/4/2011 - 15h 20

Gostei muito do site. Espero que novas matérias continuem sendo postadas sobre a arquitetura da nossa região.

Abraço.

Anderson 22/4/2011 - 15h 42

gostei muito da ideia de divulgação de pontos turistico historicos importante da nossa região, espero por mais post especialmente sobre o espaço amapaense. :D
Continue a nadar . . .

Rodrigo 25/4/2011 - 16h 08

Matéria interessante, mostrando a reinvenção de espaço públicos. Eu só acho que vocês deveriam explorar os outros estados da região norte (Amazonas, Acre, Roraima, Rondônia e Tocantins).

Parabéns :)

karinne 16/8/2011 - 14h 44

gostei muito, mas quem sabe se explorassem outros pontos turisticos de belém expondodo bem os detalhes sobre cada um para as pessoas ficarem mais interessasdas assim chamando a atençao de visitantes assim investirem mas na história.

helen vale 27/10/2013 - 21h 06

Tudo mto lindo, q bom ter apenas as lembraças das tristezas!
Já eu evito o local, póis, a emoção do passado n me dxa pizar lá novamente.
As pessoas responssáveis pela excepçional mundança estão de pararabéns!

deixe seu comentário

* Seu comentário:


6 × nine =