5 mar

Mazagão:um tesouro na floresta

O thegreenclub.com.br, visitou este mês a cidade de , Mazagão , localizada no Estado do Amapá, o município de 17.030 habitantes (Censo 2010), verdadeiro tesouro escondido na floresta, possui uma rica história que  revela  a transfêrencia de uma cidade que atravessou o Atlântico  e conheceu durante esse processo, três continentes- África, Europa, América.

Ilustração de Luiz Porto

O valor cultural desse lugar é reconhecido através das memórias de seus  moradores, que contam a história daquele lugar mesmo sem nunca ter estado em Portugal, ou Marrocos. Os mesmos emocionam-se ao falar do sofrimento de seus antepassados, que é narrado através de canções e festividades que acontecem todos os anos.

No norte da Africa , Mazagão foi uma das maiores conquistas portuguesas, localizada no Marrocos. Serviu de ponto estratégico na política de territorial portuguesa: “essa política se inscreve no movimento de expansão  da cristandade rumo às terras infiéis, na Reconquista que , a partir do século XIII, as Coroas da Península Ibérica desenvolvem contra os reinos mouros”( Vidal, Laurent 2008). A praça que havia sido ocupada pelo portugueses em território africano desde 1514, foi abandonada  no século XVIII, por decisão do Marquês de Pombal, figura importante da história portuguesa ,ministro de D.José. Essas pessoas que um dia foram o símbolo da resistência cristã  portuguesa em território mouro foram arrancados de sua terra original, para atender aos interesses da coroa portuguesa.

O Marquês de Pombal incorporou a cidade e o urbanismo em seu projeto político, sendo “ importantes peças do seu programa de atuação, quer tenha sido pelo oportunismo do trabalho inevitável e em grande escala de Lisboa , quer fosse por inerência ao próprio pensamento político de Pombal, em atitude similar com outros governantes do seu tempo que também construíram cidades por toda a Europa”(Araújo, Renata 1998). Proteger a costa brasileira, que estava vulnerável às invasões francesas, inglesas e holandesas, era de fundamental importância. Com isso, a fundação de vilas e cidades tiveram um papel decisivo no processo de colonização brasileiro. “O projeto urbanizador era um componente fundamental  do projeto de ocupação efetiva do território, que o conflito com outras potências exigiam. Muito particularmente, esta ação urbanizadora setecentista deve ser entendida no contexto político da delimitação de fronteiras entre Portugal e Espanha, na América do Sul. Fundar vilas e cidades era a forma mais eficaz de demonstrar a soberania sobre o território e de o defender”(Teixeira e Valla, 1999).

Dentro do contexto expansionista português a Amazônia ganhou grande importância no período pombalino, o vasto território deveria ser controlado e explorado. A transferência da cidade Africana para o Brasil  inseriu-se nesta estratégia, em março de 1769, quando a  coroa portuguesa deu início ,forçadamente ,a transferencia de 2.092 habitantes da  Mazagão Marroquina para o Brasil, onde seria fundada uma cidade de mesmo nome: Nova Mazagão . “Não se trata de um simples exército que deixa o campo de batalha, mas de uma cidade que abandona seu espaço vital, uma sociedade urbana que se separa de seu invólucro de pedra…quatorze embarcações foram enviadas de Lisboa para esse fim impressionante: organizar uma retirada urbana. Uma cidade sem muralhas provisoriamente distribuídas em 14 bairros flutuantes, faz vela ruma a Lisboa.”(Vidal, Laurent 2008)

Os mazaganenses enfrentaram grandes dificuldades , além da longa viagem o destino final desconhecido : enfrentar a selva Amazônica. Depois que partiram do Continente africano, foram para Portugal, permanecendo 6 meses em Lisboa, tempo necessário para organizar a viagem para o continente americano. Em seguida, viajaram para Belém, atual capital do Pará, que na época tinha uma população de 10.000 habitantes, o processo de transferência para a Nova Mazagão, foi lento ,e cada vez que a população era transferida, os números decresciam como mostra Araújo: “de Mazagão para Lisboa saíam cerca de 2000 pessoas. De Lisboa para Belém vieram já só cerca de 1000. De Belém para Nova Mazagão o processo foi feito em levas. Em 1773, o censo anual indicava a presença de 1107 mazaganistas ainda na capital. Em 1774, o número destes em Belém é de 1076…Em 1775, há uma transferência um pouco mais significativa”(Araújo, Renata 1998).O sofrimento dessas famílias e os anos de espera devem ter causado muita angústia e dor.

O traçado urbano da nova cidade, foi feito pelo engenheiro Domingos Sambucetti, naquele tempo os engenheiros militares eram responsáveis pela arquitetura dos lugares: desenhavam fortifições, vilas, todo o espaço a ser contruído. A Nova Mazagão, foi erguida às  margem do rio Mutuacá, afluente do rio Amazonas ,“sobre uma aldeia de índios ali existente, Sambucetti desenhou o plano da vila de Mazagão…Tal como a Mazagão Africana havia sido construída de acordo com recentes conceitos urbanísticos  renascentistas, também a Mazagão brasileira irá representar a aplicação de modernos princípios urbanísticos setecentistas. O plano de Mazagão baseia-se numa malha reticulada regular que define quarteirões quadrados com 560 palmos( 132,2 metros) de lado e ruas com 40 palmos(8,8 metros) de largura”(Texeira e Valla, 1999)

A natureza do lugar, formada por terrenos alagados e pantanosos, dificultou a aplicação da regularidade nos quarteirões, que sempre foi muito presente em cidades portuguesas e espanholas. Toda a infra-estrutura para abrigar a nova cidade foi programada: casa de câmara e cadeia, praça, igreja, casas. “No final de 1772, três anos após a fundação da vila, haviam construído134 habitações das quais 117 se encontravam já ocupadas. Nesta altura , a população constava de 459 habitantes, dos quais 383 eram colonos portugueses”(Teixeira e Valla 1999)

A adaptação dessas famílias à Mazagão da Amazônia, foi algo que envolveu muita resistência, pois os moradores que um dia haviam lutado contra os mouros na Africa achavam que esta nova condição era injusta e indigna. No entanto, para a coroa, a transferência, estratégica trouxe o fortalecimento da soberania portuguesa em território da colônia brasileira, demonstrando a vitória do projeto desenvolvido pelo Marquês de Pombal.

Festa de São Tiago (Imagem de Guy Veloso)

Na Amazônia essa comunidade enfrentou, além da separação, frustração, as doenças tropicais, muito isolamento, além da saudade. Hoje a cidade de Nova Mazagão chama-se Mazagão Velho. Todos os anos, na Festa de São Tiago, os moradores, descendentes dos africanos contam as vitórias de seus antepassados em território marroquino, é uma grande celebração. Em relação a arquitetura e urbanismo, muito foi modificado, desde o traçado urbano à casas dos moradores. O que se vivência além da memória do povo, é a força da história, muito bem preservada , das crianças aos adultos.

O verde da floresta, a simplicidade de seu povo , a força da identidade cultural, são sem dúvida uma riqueza que vale a pena ver de perto.

Grupo de Pesquisa visitando Mazagão na Amazônia

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

Araújo, Renata Malcher de.  As Cidades da Amazônia no Século XVIII:Belém, Macapá;Mazagão.Porto,Faup,1998.

Teixeira, Manuel e Valla, Margarida. O Urbanismo Português. Portugal,Livros Horizontes,1999.

Vidal, Laurent. Mazagão a cidade que atravessou o Atlântico.Sao Paulo, Martins Fontes,2008.

comentários

carmen 5/3/2011 - 17h 46

Excelente! A riqueza de detalhes,as imagens e o resgate histórico são de pessoas comprometidas com a realidade amazônica . Parabéns professora Bianca pela trabalho inovador e referencial para os estudos acadêmicos.

Gilberto 5/3/2011 - 20h 09

Excelente Bianca!Vá em frente, fico muito feliz em ver voce se encontrar profissionalmente,vejo muito amor e dedicação no desenvolvimento deste trabalho!Vá em frente minha menina!Bjs.

Enedino 6/3/2011 - 04h 52

Trabalho carinhoso e professional. Gostei. Congratulations!

Jean Leitão 6/3/2011 - 14h 54

Texto apaixonante Bianca! Motiva-nos até a ir a Mazagão!

Emerson Santos 13/3/2011 - 00h 12

Excelente texto, nos faz refletir acerca de nossa rica histórica e que muitos desconhecem, esse site vai longe!

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