A Amazônia é um lugar fascinante, 60% dela está localizada no Brasil. Ela possui o maior conjunto de florestas tropicais do planeta, entretanto pouco conhecemos deste universo, em que apenas 10% é conhecido pela ciência. Até 1961, esta parte do território brasileiro não era conectada por estradas: o avião e o barco eram os meios de transporte que a comunicavam com o restante do território nacional. Por isso vários programas foram criados com a intenção de desenvolver esta região.
Aqui existem muitas contradições: o tempo passou, as cidades cresceram e hoje existem lugares com milhões de habitantes como é caso de Manaus e Belém, cidades médias como Macapá, cidades pequenas, além de comunidades ribeirinhas, onde as pessoas continuam a viver do extrativismo.
Estudos comparativos na área de arquitetura e urbanismo estão sendo realizados para melhor entender a complexidade de nossas cidades, pois existem sim problemas urbanos na Amazônia. Nas capitais, é comum a presença de assentamentos irregulares, onde casas do tipo palafita são adotadas em alguns bairros como moradias.
A relação entre as moradias nas cidades e as casas dos ribeirinhos é algo que nos ajuda a entender como a vida urbana precisa estar em conciliação com o meio ambiente. Recentemente, a Universidade Federal do Amapá, em parceria com o IEPA (Instituto de Pesquisas Científicas e Tecnológicas do Estado do Amapá), pesquisou 17 áreas alagadas no município de Macapá, capital do Amapá. O trabalho está em fase de finalização, entretanto os questionários indicaram que a maioria desses moradores da capital do Amapá é de origem ribeirinha. Vieram para cidade com a expectativa de ter um trabalho fixo e acesso aos serviços públicos como saúde e escola para os filhos. Essas famílias também trazem seu modo de viver: constroem casas sobre áreas alagadas, reproduzindo uma situação comum em toda região, que na cidade transforma-se em um caos.
Nesta pesquisa, muitos moradores eram originários do município de Afuá, pertencente ao estado do Pará (vizinho do estado do Amapá), os quais relataram para os pesquisadores que a qualidade de vida que levavam anteriormente era melhor nos aspectos relacionados a sua subsistência, porém a falta de assistência médica e educação para seus filhos os faziam permanecer em Macapá.
A vida do ribeirinho afuaense é muito interessante. Do porto da cidade de Macapá até o Afuá são quatro horas e meia de barco. A viagem é uma aventura pela imensidão do rio Amazonas, que começa pela simples tarefa de se atar uma rede, chegar na cidade e alugar um bicitáxi, pois lá não existem carros. Em um passeio caminhando ou de bicitáxi pode-se conhecer e entender como vivem os moradores, que mesmo com os sérios problemas de saneamento básico, conseguem viver em harmonia com a natureza.
Viver sobre pontes não deve ser fácil, existe preocupação constante com as crianças em aprenderem nadar, pois para as famílias é fundamental desenvolver a relação com a natureza desde cedo. Do porto ou caminhando pelas pontes, as crianças brincam com os botos, ou praticam umas com as outras o salto mais perfeito na água.
A cidade é tranqüila, simples e muito colorida, existe um senso coletivo de organização. Foi interessante observar que seus moradores tem preocupações estéticas com suas casas, a presença dos meios de comunicação como a televisão e internet talvez tenha influenciado em algumas soluções mais ousadas.
As casas são interligadas também por pontes, onde todas as ruas são construídas em madeira, algumas já começaram a ser substituídas por pontes de concreto, mas em geral quase tudo foi projetado em madeira. Os moradores constroem suas habitações sobre pilotis, protegendo-as da força do rio.
Os espaços públicos, como praças, ruas, estão suspensos, e encontram-se formando uma grande cidade flutuante, onde não é permitida a utilização de veículos motorizados ou construção de prédio de concreto; em quase toda a cidade o que se vê são palafitas.
Pink, laranja e verde atômico: são cores marcantes presentes nas fachadas das edificações. Nos ornamentos das varandas, a mesma regra: uma festa de lilás com laranja e várias outras combinações. A planta das casas é muito simples, construídas em madeira, formadas por dois ou três quartos, uma sala e cozinha. Há muito tempo, a utilização da telha de fibrocimento popularizou-se por lá, em substituição às folhas de árvores da região, devido a seu baixo custo. Em geral, as casas possuem um pavimento. Os moradores que possuem maior poder aquisitivo constroem até dois. A cozinha é um espaço que mostra a forte relação do ribeirinho e a água. Nela está a estrutura do “Jirau”, um local em que se lava o peixe antes de seu preparo para evitar que o cheiro permaneça dentro da casa.
A área pública da cidade é uma imensa praça construída sobre palafitas de madeira que se conectam a uma enorme passarela de concreto. Desde o final da década de 90, iniciou-se um processo de substituição das palafitas em madeira por pontes de concreto armado. Porém a preferência dos moradores é pela ponte construída de forma tradicional, pois reclamam ser muito “quente” caminhar pela ponte de concreto.
A maioria deles não sabe informar nome de rua. Para se locomover, é preciso guiar-se pelos marcos visuais: “sabe onde tem aquela casa verde com o telhado laranja? Perto da casa pink do lado da azul?”, é o que normalmente se escuta por lá.
Os equipamentos urbanos são também todos em madeira espalhados pelas pontes, onde sempre existe uma lixeira ou banquinho para sentar-se e ver o rio, para vivenciar algo acontecendo: tem sempre alguém tomando banho, pescando, chegado de viagem ou partindo. A área do mercado tem edificações onde são vendidos os produtos que fazem parte da alimentação da região: peixe, frutas e entre elas a mais importante, o açaí.
No porto, existe um enorme bicicletário onde os funcionários da fábrica de palmito deixam seus veículos e atravessam em um barquinho para trabalhar. A bicicleta, depois do barco, é seu meio de transporte mais importante, quase todas as casas tem garagem de bicitáxi.
Um dos maiores problemas na cidade é a falta de investimentos em saneamento básico, pois apesar do imenso rio que passa em frente à cidade, a água que sai das torneiras não é própria para o consumo. Existe um esforço coletivo dos moradores para manter a cidade limpa, mas a ausência de instalações de tratamento de água e esgoto tornam a vida dos moradores muito difícil, é comum os casos de proliferação de doenças causadas pela contaminação da água. Os órgãos públicos deveriam estar mais sensibilizados para ações que melhorariam a vida destas comunidades.
A falta de assistência, no que diz respeito às necessidades para a sobrevivência humana, impõe uma dura realidade para essas pessoas: mudar para uma capital. No caso do Afuá, a capital mais próxima é Macapá.
Nas cidades, quando os ribeirinhos tentam reproduzir seu modo de vida, o resultado muitas vezes é negativo. Na floresta, onde os recursos são abundantes, e o espaço também, a relação com a natureza é mais harmônica, dela se tira o necessário para a e subsistência, é um exemplo de vida sustentável. Entretanto na cidade o meio natural já foi destruído, e para sobreviver, geralmente invadem áreas de propriedade particular ou do governo e ainda trabalham na economia informal.
A saudade da vida na floresta está presente em várias entrevistas realizadas com os ribeirinhos durantes as pesquisas, todavia desejam viver com qualidade de vida, ter acesso aos serviços básicos para a sobrevivência, e aos instrumentos que permitem transformar suas vidas: a educação . Certamente, existe um vocábulo que traduz com clareza o recomeço deste relacionamento homem-natureza: conciliação.




