6 mar

Festa de São Tiago: um palco a céu aberto no município de Mazagão Velho (Amapá)

Mazagão Velho está situada há 50Km da capital do Estado do Amapá, Macapá, às margens do Rio Mutuacá, que enche e esvazia todo dia. Foi fundada em 1770 para abrigar 163 famílias de cristãos africanos em decorrência de conflitos político-religiosos entre portugueses cristãos e árabes muçulmanos. Essas famílias chegaram ao local de destino por volta de 1771 e a partir de 1777 em reverência a São Tiago, que segundo a lenda, trata-se de um soldado misterioso que bravamente lutou nos conflitos que ocorreram no continente africano. Os moradores revivem a céu aberto, todos os anos a batalha que cristãos e muçulmanos travaram no continente negro.

Imagem de São Tiago Matamouros Fonte:Guy Veloso

A maior festa é a de São Tiago que ocorre anualmente no mês de julho, entre os dias 16 e 28 de onde é encenado o conflito entre mouros e cristãos, um verdadeiro teatro a céu aberto nas ruas da cidade onde o público também participa. Além dos habitantes, pessoas de vários municípios do Estado,  turistas de outros estados e até mesmo outros países.

As imagens de São Pedro e São Tiago são particularmente veneradas neste evento. Com a proximidade da festa, Mazagão se enfeita de forma muito colorida na qual cada morador se empenha para contribuir com a ornamentação, música, som e comidas. Uma festa na qual o sagrado e o profano se misturam.

Imagem de mazaganenses vestidos a carater durante a festa. Fonte: Guy Veloso

A festa inicia por volta das seis e meia da tarde do dia 16 com o disparo de fuzis diante da capela. Os moradores se recolhem perante das imagens dos dois santos. A procissão começa e dois rapazes entram a cavalo na capela para buscar as imagens e todos os acompanham com luminárias. Próximo, estão quatro cavaleiros mouros e à frente deles, quatro cavaleiros cristãos. Ao centro, está um mouro que leva um estandarte vermelho. Daí segue os cavalos de são Jorge e São Tiago e logo em seguida o público presente. Durante o cortejo, jovens soltam fogos de artifícios e rojões.

A procissão segue até a igreja. As imagens são depositadas no altar. O curioso é que nenhum padre se faz presente. Então se inicia a celebração e seguem-se cânticos acompanhados dos rojões. Dessa forma, o primeiro dia de novena se dá por finalizado. Logo em seguida começa o baile, muito esperado principalmente pelos jovens da região. A música se mistura em ritmos e a festa só acaba ao amanhecer, seguida da cerimônia religiosa às seis da manhã, esta solenidade segue desta maneira durante uma semana até a grande batalha que ocorrerá nos dois últimos dias.

Na madrugada do dia 23 para o dia 24 de julho, um tiro de fuzil dá inicio à “alvorada festiva”, um grupo de pessoas segue para a igreja e se posta diante das imagens dos santos. Depois dirige-se para a saída da cidade, passa pelo pórtico iluminado e reúne-se no campo de futebol e aguardam. Às cinco horas da manha os sinos da igreja tocam e acompanhados de rojões e tambores em meio a multidão que se poe em movimento. O grupo avança lentamente em busca dos personagens principais dessa festa. A primeira casa visitada é de São Tiago que participa da música e dança entoados por um pequeno grupo de homens. Enquanto isso, a multidão saboreia os pratos e bebidas preparados pela dona da casa. Depois os tambores levam o cortejo em direção a outra casa (São Jorge, depois os atalaias, mouros) e assim vai até a ultima casa.

Festa de São Tiago: procissão percorre as ruas da vila de Mazagão Velho. Fonte: Guy Veloso

Com todos os personagens presentes, a procissão segue pelas ruas de Mazagão Velho até adentrar a igreja para a cerimônia religiosa às nove horas da manhã. Por volta das três da tarde, os emissários mouros oferecem aos dignitários católicos (representados pelos vereadores da cidade) as iguarias. Os dignitários aceitam o presente, mas desconfiam que possam estar envenenados. Depois de ter ofertado os presentes aos cristãos, os mouros se retiram, convencidos do êxito na missão. Assim, preparam um baile de mascaras para a noite no intuito de comemorar a armadilha, dando também oportunidade aos cristãos que queiram se converter a eles de uma maneira anônima.

Nesta cerimônia só os homens participam e improvisam uma marionete que a princípio representa Judas, mas logo torna-se algum personagem da atualidade com o nome em um pedaço de cartolina pregado em seu peito. Durante o baile, os mouros perdem sua majestade, o Rei Caldeira. Pois os cristão se infiltram para devolver as iguarias envenenadas. Pela manha, o herdeiro do trono, o menino caldeirinha toma o posto de majestade. Representado na solenidade por um garoto de até três anos de idade montado a cavalo.

Cidadãos mazaganenses mascarados. Fonte: Guy Veloso

Por fim, no dia 25 de julho, o dia da grande batalha. Por volta das oito horas da manha, as imagens de São Tiago e São Jorge são retiradas da capelinha e seguem em procissão até a igreja, acompanhados de cânticos que ritmam os passos do público presente. No meio da multidão, as imagens dos santos surgem a cavalo em galopes apressados mais adiante. Quando a procissão termina, celebra-se uma missa.

Depois de transcorrida toda a solenidade, realiza-se um leilão e em seguida um grande almoço. De repente ouve-se um galope, é o bobo velho, em espião mouro que tenta se infiltrar no acampamento cristão. Ele é desmascarado, vaiado, atiram-no cascas de frutas e pequenos objetos, por três vezes ele tenta passar e é expulso. Logo após essa encenação, no palanque três pessoas se revezam para narrar a história ao sinal de tambores começa a batalha em sete cenas os espectadores nas calçadas atentos a narração, observam a interpretação. Na ultima cena dá-se o retorno das imagens à capela através de um círio dando por fim o encerramento da festa.

Ao acompanhar toda a programação teatral com cavalos, soldados amadores, público participando atento, narradores e personagens tem-se noção da significativa importância cultural desta festa tanto para a comunidade local quanto para o Estado do Amapá. Pois tem-se a resistência dessa cultura que continua viva e é reproduzida há mais de 240 anos pelos descendentes da “cidade que atravessou o Atlântico”.

Referências Bibliográficas

VIDAL, Laurent. Mazagão, a cidade que atravessou o Atlântico: do Marrocos à Amazônia (1769 – 1783). Martins Editora Livraria Ltda., São Paulo. 2008.

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