8 jun

Arquitetura Indígena: uma abordagem sócioespacial sobre a tribo Wajãpi no Amapá

A história do Brasil é riquíssima em fatos que contribuíram para formação própria do país nos mais diversos parâmetros, sejam eles: políticos, econômicos e sociais, que se apresentaram e muitos ainda prevalecem evidenciando suas origens, tal como os povos indígenas que já ocupavam as terras brasileiras, recém-descobertas pelos portugueses por volta de 1500. É relevante então, a abordagem do aspecto arquitetônico com o social e o cultural, que pertenciam à esses grupos, especificamente no estado do Amapá, à tribo Wajãpi.

Os indígenas eram divididos e classificados em tribos, levando consigo o aspecto linguístico. Sendo assim, as línguas indígenas eram paralelas aos grupos. Estima-se cerca de 200 etnias indígenas e 170 línguas. Entretanto, a maioria não habita aos modos como anteriormente vivia, até a chegada dos portugueses. A relação com o europeu acarretou a perda de grande parte da identidade cultural de muitas tribos. Vale ressaltar que no período em que os portugueses chegaram ao Brasil, a população indígena foi escravizada e sofreu com o domínio imposto pelo eurocentrismo dos portugueses.

Esses povos indígenas possuem vários costumes, tiravam e muitos ainda tiram sua subsistência de atividades como: o cultivo de plantações próprias das terras, assim como, a caça a animais, a utilização de matérias-primas para a produção de objetos, como canoas, arcos, flechas, redes e utensílios. Confeccionam também seus próprios trajes, fazem pinturas corporais através do urucum e são construtores fazendo suas próprias habitações, que em suma fazem parte da arquitetura vernacular. É interessante observar, que esses povos impunham e ainda possuem um conceito construtivo particular, uma arquitetura propriamente indígena.

Observe a seguir um trecho da Carta de Pero Vaz de Caminha, escrivão da expedição de Pedro Álvares Cabral:

“…foram bem uma légua e meia a uma povoação, em que haveria nove ou dez casas, as quais diziam que eram tão compridas, cada uma como esta nau capitania. E eram de madeira, e das ilhargas de tábuas, e cobertas de palha, de razoável altura; e todas de uma só espaço, sem repartição alguma, tinham de dentro muitos esteios; e de esteio a esteio uma rede atada com cabos em cada esteio, altas em que dormiam. E de baixo, para se aquentarem, faziam seus fogos. E tinha cada casa duas portas pequenas, uma numa extremidade, e outra na oposta. E diziam que em cada casa se recolhiam trinta ou quarenta pessoas, e que assim os encontraram…” (CAMINHA, Pero Vaz apud. CORTESÃO, Jayme)

Nessa carta é possível ter uma ideia da arquitetura exercida pelos indígenas, descrita minunciosamente por Pero à D. Manuel, cujo qual, teve o primeiro contato com esse tipo tão peculiar de habitação.

Neste artigo abordaremos a temática da arquitetura Wajãpi no estado do Amapá, bem como os reflexos na organização espacial, perfazendo âmbitos que convergem de uma inter-relação entre habitação e conjunto (aldeia) interferindo diretamente no convívio e perpetuação desses povos.

O grupo étnico Wajãpi possui uma população de cerca de 800 indígenas no estado do Amapá, no Brasil e 1.100 indígenas que residem em território pertencente à Guiana Francesa, no alto do Rio Oiapoque. Os estudos sobre arquitetura aqui abordados referem-se às aldeias Wajãpi localizadas no estado Amapá, especificamente as que se localizam as do rio Jari ao rio Araguari.

1- Terras indígenas Wajãpi (Fonte: www.institutoiepe.org.br)

As aldeias Wajãpi originam-se espacialmente através das roças (koo, na língua Wajãpi), que servem de núcleo embrionário, já que estas se desenvolvem em torno do centro da mesma. Esta, portanto, é o marco fundamental na organização social Wajãpi. Cada família possui geralmente duas roças em estágios distintos, sendo aberta uma durante ao ano. Num período de dois a cinco anos as roças decaem sua produtividade de mandioca-brava (vegetal utilizado principalmente na fabricação de farinha e bebidas pelos índios) e a roça é abandonada, os Wajãpi deixam seus rastros no local, pois durante a ocupação desse espaço plantam uma diversidade de árvores frutíferas. Esse período de tempo não é aleatório, é totalmente pensado estrategicamente, pois concomitante ao empobrecimento do solo para plantação de mandioca, a deterioração das coberturas das casas, feitas de palha ubim (uma espécie de palmeira local, da qual são extraídas as folhas para utilização das coberturas das edificações indígenas) é um fator relevante para os Wajãpi, pois a partir desse momento a aldeia precisa encontrar outro local para habitar e dar continuidade as suas relações sociais.

2- Ilustrações e fotografias de aldeias Wajãpi ( Fonte: www.institutoiepe.org.br)

As aldeias possuem elementos espaciais que são chamados de pátios, principalmente destinados ao encontro de todos os habitantes das mesmas. Normalmente uma aldeia possui um ou mais pátios, que se interligam por caminhos, estes transferem as ligações para os igarapés e à floresta. Cada aldeia pode ser habitada por duas famílias com uma quantidade pequena de casas circundando um único pátio, ou também até dez famílias podem morar em torno de vários pátios na mesma aldeia, desde que as famílias se relacionem através de casamentos e pactos de cooperação, no que concerne a distribuição de atividades para a sobrevivência e manutenção da mesma, ou seja, o número de pátios aliados aos fatores já citados quantifica a numeração de famílias que vivem circunscritas às proximidades dos pátios.

É notória a importância desses elementos de organização social indígena, as funções que o pátio exerce, vão mais além da quantificação familiar, o cultivo de vegetais medicinais, comestíveis e os que são usados para confecções de artefatos como colares, paneiros (um tipo de cesto entrelaçado com farpas extraídas palmeiras) são umas das atividades realizadas nesse espaço, bem como onde a maior parte das relações sociais indígenas se desenrola, nele encontram-se a cozinha, o jardim e onde se realizam as refeições e as festas.

No que diz respeito às dimensões mensuráveis, o pátio não possui um contorno geométrico preciso, sua forma varia de acordo com a necessidade das famílias, por exemplo, um pátio pode ser bastante estreito, se considerarmos que este une duas edificações, ou pode ter dimensões mais elevadas, se funcionar como elemento de ligação de um conjunto de casas.

A habitação Wajãpi é decorrente de um soma de variáveis, estas possuem ligações intrínsecas com a natureza e com a cultura nativa dos indígenas. As casas Wajãpi, denominadas oka por eles, são “projetadas” especialmente visando a situação móvel das aldeias, levando em consideração também o ecossistema e o bioclimatismo local. Construídas pelos próprios índios, os posteriores donos das mesmas, as casas Wajãpi, demonstram a capacidade de construir sem arquitetos uma boa e sustentável arquitetura, já que os preceitos utilizados no erguimento da edificação condizem com boas práticas arquitetônicas e se enquadram no conceito de arquitetura vernacular. Outro fator interessante é a técnica utilizada, que embora muito antiga supre as necessidades e dessa forma perpetua a cultura milenar desses povos.

Ilustração feita por índios Wajãpi ( Fonte: www.institutoiepe.org.br)

Três tipos de habitações são dominantes numa aldeia Wajãpi e são classificadas de acordo com maior durabilidade da edificação e o tempo de permanência, são elas: a casa Jura, o Yvy’o e a tapaina ou tapiri. A casa Jura é caracterizada por ter um piso que se sobrepõe um metro e meio do chão, o Yvy’o é a casa térrea, enquanto a tapaina ou tapiri refere-se a uma tipologia que tem ocupação temporária.

“As casas Wajãpi têm muitos pontos em comum em seus aspectos construtivos, porém, como são construídas por seus donos, com ajuda de genros e às vezes irmãos, têm particularidades que lhes são próprias. As proporções das suas partes construtivas mudam bastante. Por exemplo, a cobertura de uma casa pode acabar ou não quase rente ao piso elevado, no caso de uma casa jura ou, no caso de yvy’o rente ao chão de terra batida. A cobertura das casas tem sempre duas águas, mas às vezes uma de sua extremidades é arredondada, formando um semicírculo, chamado jãwi revikwara (‘traseiro de jabuti’). Esta estrutura arredondada pode estar acoplada tanto à estrutura do telhado da casa jura, quanto à casa yvy’o, quando é de preferência da família e sobretudo, quando há matérias-primas suficientes (palha ubim).” (GALLOIS, Catherine, 2004)

A funcionalidade que a arquitetura exerce para os Wajãpi é imprescindível para perpetuação de seus hábitos culturais. A edificação transpassa valores que vão desde o resguardo da moça, em razão da sua transformação de menina-mulher até o resguardo do primeiro filho de um casal Wajãpi. Para eles o resguardo pertence a um conjunto de regras que possibilitam a sobrevivência dos indígenas, por exemplo, não ter contato com os raios solares, não ser molhado pela chuva, não pisar na terra, entre outros. Nesses aspectos a forma e a função da arquitetura acabam moldando os costumes e tradições culturais desses povos.

Ilustração feita por índios Wajãpi ( Fonte: www.institutoiepe.org.br)

Em suma, é notório reconhecer o legado que as tribos deixaram como acervo cultural para a formação do Brasil, e mais ainda, reconhecer as estratégias de habitação criadas por eles, nesse caso, em especial, a tribo Wajãpi, que mostra a habilidade provinda de maneira empírica para o aspecto construtivo que passa de geração em geração, evidenciando e reforçando ainda mais as relações sociais entre a habitação e a cultura da população indígena.

REFERÊNCIAS:

CORTESÃO, Jayme. A Carta de Pero Vaz de Caminha. Rio de Janeiro: Livros de Portugal, 1943.

BRASIL, Ministério da Educação. A presença Indígena na formação do Brasil. Séries: Vias dos Saberes nº 2. Brasília, 2006.

ANTÔNIO, Guilherme; BENATTI, Karoline; BOLSON, Vivian e FERREIRA, Rovy. Arquitetura Indígena (Apresentado em Graduação). Departamento de Arquitetura e urbanismo: UFSC.

GALLOIS, Dominique; GRUPIONI Denise. Povos Indígenas no Amapá e Norte do Pará: quem são, onde estão, quantos são, como vivem e o que pensam? IEPÉ, 2003.

JANE REKO MOKASIA: Organização Social Wajãpi. APINA, IEPÉ, Museu do Índio e IPHAN, 2009.

www.instituoiepe.org.br

www.apina.org.br

www.museodoindio.org.br

www.iphan.gov.br

www.funai.gov.br

comentários

Clarice Klein 8/6/2011 - 12h 07

Parabens, pois a cultura indigena é de extrema importância para o resgate da identidade cultural brasileira, um grande abraço para o Neto.

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